"Uma manhã acordo transformada. Já aconteceu antes." Quis dizer uma coisa. Já na rua, ao refletir sobre o que tinha efetivamente escrito, entendi que a letra podia estar dizendo o oposto do que pretendi.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
noite
Continuo sonhando, incessantemente, noite após noite, coisas boas e desagradáveis, nós de entendimento em meio à areia movediça de signos dispersos. Mas não afundo ou derrapo ― há a cama, há o chão em que vida se firma, o colchão no chão para fugir à rotina. Uma manhã acordo transformada. Já aconteceu antes.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Dora Ferreira da Silva
POETAS E INSETOS
Gravamos nas folhas (como insetos)
signos arbitrários
futuros dicionários
para aprendizes de símbolos.
O céu é transparente como
as lentes dos óculos
e a terra se adorna
como as belas mulheres.
Subimos a escada platônica
descemos a escada plutônica
escrevendo entre dois amores
a modo de insetos nas folhas
para gerar sem fim
outras flores
outras fomes.
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.137.
Dora Ferreira da Silva
MURMÚRIOS
Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.140.
a escrita no espelho
A censura faz parte da escrita. Na sessão de hoje, ao comentar certa angústia, a analista sugeriu que eu escrevesse sobre. Diante de minha interrogação ― o fato de eu tomar a escrita como algo público ―, ela esclareceu que estava apenas sugerindo que eu escrevesse. O que já estou fazendo. Escrever como um processo terapêutico. Naturalmente ela tem em mira o fato de a escrita poder ajudar no processo da fala durante a sessão. Mesmo assim, quantas interdições! O que é uma questão minha, antes de tudo. Diante da tirinha a seguir, disse numa aula que espelhos não falavam: quem fala através deles somos nós, e o outro que nos habita. A escrita torna-se uma modalidade de espelho do que se é, ou do que alguém supõe ser, passando a traduzir coisas que supomos interditadas. Li no blog da Helena um comentário de matéria publicada no jornal El País, e não pude deixar de concordar: “No entanto, não será um espelho aquilo que reflete a nossa imagem mais verdadeira, dado que, frente a ele, sempre a compomos. Nem quem pensa conhecer-nos a reflete. Nem quem nos ama. E muito menos quem nos odeia... Parece que, para verdadeiramente sermos decifrad@s, necessário será sermos olhad@s por quem não nos conhece de todo e, cumulativamente, não tenha razões para nos olhar com 'pré-conceitos'. Por isso, uma amiga de Ray Loriga, Sophie Calle, por ele referida no seu artigo, contratou um detetive para a seguir durante uns tempos e, com o material por ele reunido, montou uma exposição sob o nome 'Detective', na qual aprendeu com todo o rigor e provas documentais, aquilo que displicentemente dizemos, mas em que nunca verdadeiramente acreditamos: nós nunca somos quem julgamos ser!”
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
admirar
Admiração não se confunde com amor e amizade ― pelo contrário, pode ofuscá-los. Há qualquer coisa de exterioridade na admiração: ad-mirar, olhar que se aproxima, que se quer próximo, mas que para na pura exterioridade do gesto, na opacidade (epiderme não transparente) daquele que resiste à admiração. As palavras, na admiração, são excessivas e nunca bastantes. Simplesmente porque na admiração busca-se no outro a confirmação do próprio narcisismo. Gostar tem outra qualidade, e inclusive pode economizar palavras. A propósito, Fernando Pessoa distinguiu bem as duas coisas.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
casinha na Gamboa
Hoje, passando pela Gamboa, não pude deixar de me lembrar da célebre menção ao bairro. A geografia é inseparável da literatura. Nos dias de hoje, onde Machado de Assis abrigaria da vigilância pública o casal de amantes? Ainda seria necessário fazê-lo?
estrada antiga
Há uma estrada antiga que resquícios esquecidos do eu reconhecem. A estrada confunde-se com esse lado adormecido do eu ― desperto em sonho ―, dá-lhe contorno. Uma estrada antiga, da infância, nunca esquecida. Coisas, recentes, sem nexo aparente, confluindo para a estrada, num lampejo reconhecida, ainda que envolta em camadas de sonho. As coisas desconexas? Um corte indesejado de cabelo, lembrando outros cortes, tesouradas dadas por força de se proteger. Mais o quê? Estranha vizinhança, e a estrada antiga onde o eu, portando a tesoura, reconhece um corte com a infância. “Que culpa temos nós dessa planta da infância, / de sua sedução, de seu viço e constância?” (Jorge de Lima, Invenção de Orfeu).
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
domingo, 1 de janeiro de 2012
Jorge de Lima: Invenção de Orfeu
[Canto III, Poemas Relativos, XXVII]
Contemplar o jardim além do odor
e a mulher silenciosa entre os semblantes,
e refazê-los todos, todos antes
que o tempo condenado os atraiçoe.
Porque eu quero, em memória, refazê-los:
flor longínqua, mulher não pertencida,
substância inexistente, móvel vida,
intercessão de nadas e cabelos.
E meus olhos ausentes me espiando
entre as coisas caducas e fugaces
a minha intercessão em outras faces.
Orfeu, para conhecer teu espetáculo,
em que queres senhor, que eu me transforme,
ou me forme de novo, em que outro oráculo?
LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Ediouro, s/d, p.81.
viver
Viver podia ser uma coisa mais realista ― uma sensação que me veio depois de ler os contos de Clarice Lispector escritos para crianças ― A vida íntima de Laura, A mulher que matou os peixes, Quase de verdade, O mistério do coelho pensante. “Você sabe que Deus gosta de galinha? E sabe como é que eu sei que Ele gosta? É o seguinte: se Ele não gostasse de galinha, Ele simplesmente não fazia galinha no mundo. Deus gosta de você também senão ele não fazia você. Mas por que fez ratos? Não sei.” (Clarice Lispector. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.14)
pergunta sem resposta
A minha queridíssima sobrinha Beatriz, que completará cinco anos no próximo domingo, faz-me pergunta para a qual não consigo imaginar resposta: Por que papai do céu fez o ladrão? Na falta de uma resposta, e já numa outra volta da conversa, é-lhe lembrado o que ela havia dito antes: que ela vai ser tudo (quando crescer). Vou ser tudo, menos ladrão ― responde ela. Tudo, para uma criança de cinco anos, é o reino das possibilidades, o sonho abarcando a vida.
PAZ
Peace is a fiction of our Faith -
A Paz é uma ficção da Fé -
DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.44-45.
contra/dicção
É que há algo maior em ação, o que traduziria por sensação de marionete. Se a mitologia concedeu à esperança um lugar único, é porque desde cedo o homem reconheceu o quanto dependia desse sentimento para seguir em frente. Onde está a contradição? Na sensação de impotência diante da força da esperança. Há dois dias, ao rever um poema de Emily Dickinson, pensava no extraordinário poder da palavra proferida, a tal ponto que, sem perceber, o tempo todo se está interferindo no desconcerto do mundo. Guimarães Rosa, mirando Camões, falou no concertar consertado: “Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” Se tivesse sido dito consertar concertado, mudaria muito? Concertar, consertar... uma partitura também se desarranja, e não é novo o símile entre música e vida ― às vezes mais ruído que sinfonia (ou sintonia). Mas então os ruídos precisariam ser incorporados à partitura.
Dora Ferreira da Silva: flor refletida no olhar
AGORA, AS COISAS SIMPLES...
Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.352.
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