Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 22 de março de 2011

Cacaso: Jogos Florais

No post anterior, não escapa que a canção Lero-Lero tenha letra de Cacaso, talvez, junto com Torquato Neto, o mais corrosivo dos poetas marginais. Subjacente a uma melodia que pode sugerir certa displicência do brasileiro (e o vídeo da canção é de 79...), há um jogo sutil de ironias acerca do que era então esse personagem, em que avulta a voz da dissonância: "Eu sou poeta e não nego a minha raça / Faço versos por pirraça e também por precisão." Preciso. Ou melhor, incerto, não inserto. Pois é de Cacaso um dos mais irônicos poemas da época, publicado na primeira edição da antologia 26 poetas hoje (1975). 

JOGOS FLORAIS

I           
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. 26 poetas hoje. 2.ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007, p.41. 

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