Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 26 de março de 2011

Clarice Lispector por Gonçalo M. Tavares

“Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata se tornará mais importante que o imperador. Chamamos imperador ao imperador, e barata à barata, porque a média dos olhos humanos olha mais tempo para o imperador do que para a barata.
‘O que é um revolucionário?’, pergunta-me a minha filha de 3 anos, e eu respondo: ‘É quem olha mais tempo para uma barata do que para um imperador.’
‘E o que é um imperador?’, pergunta-me minha filha. ‘É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata’, respondi.
E, por favor, não me faças mais perguntas." 

Fragmento do livro Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares, em diálogo com a obra de Clarice Lispector. Postado por Luiz Lopes em seu Caderno de Caligrafia

9 comentários:

Luiz disse...

Obrigado pela referência. Você gostou mesmo, hein? Acabei de ler o livro agora mesmo. Fiquei impressionado com o alto teor poético que Gonçalo usa para falar de cada autor que leu. Amanhã retomarei o outro livro dele comentado pela Cult, pela Bravo e outras revistas: Uma viagem à Índia. Beijo!

Mariana disse...

Sim, muito, porque é a escrita/obra reinventada, o que mostra a vitalidade da leitura dele. E ele pegou um episódio bárbaro e difícil da obra dela, a barata.

Creio que vou comprar o livro, quando desafogar a fila da leitura por aqui. É que também estou mais dilatada, lendo com mais vagar, ao contrário de você... rs.

Beijo!

Luiz disse...

Sim, entendo. O episódio é mesmo difícil. Agora mesmo estava às voltas com ele, escrevendo o tal do capítulo. Acho que nos completamos de algum modo pelo oposto. Nossa amizade funciona porque estamos em pólos opostos e conseguimos atravessá-los. Você, com seu vagar, uma leitura e escrita atenciosas, certeiras, e, eu e minhas leituras rápidas, uma escrita veloz que não deseja parar para conferir a ortografia ou a sintaxe...rs. Beijo!

Mariana disse...

O que dizer depois de um comentário tão bonito e desprendido? Obrigada: pela confiança, pela leitura, pela amizade sobretudo.

Seguindo na travessia.

Beijo!

sonia disse...

Aproveito para perguntar se conhece o livro Um Caminho para as Indias, de Gonçalo Tavares e em caso afirmativo, o que achou? Dei de presente a uma amiga pelo aniversário. Espero ter acertado na escolha. Acabo escolhendo meus livros pelos blogs de Literatura que coloco nos meus Feeds.
Um beijo e bom final de domingo.
Sônia

Mariana disse...

Oi, Sônia, quem conhece e está lendo é o meu amigo Luiz, que fez o post que cito:

http://goncalomtavares.blogspot.com/2010/11/uma-viagem-india-no-brasil-angola-e.html

Ele está lendo o livro e talvez já tenha um parecer a respeito. É só entrar no post e perguntar que ele responde numa boa.

Presentes são mesmo escolhas complicadas.

Outro beijo e bom final de domingo!

Mariana disse...

Ooooos, postei o link errado. Aí vai:

http://luigilopes.blogspot.com/2011/03/biblioteca-de-goncalo-m-tavares.html

sonia disse...

Já fui até o blog do Luiz e pedi uma opinião a mais sobre o livro, apesar de que já dá para ter uma idéia, lendo o que ele postou.
Obrigada, Mariana.

Mariana disse...

Sônia, o blog do Luiz é ótimo: como ele lê vorazmente, está sempre comentando os livros que lê, os filmes que assiste. Só de ele ter escolhido o autor para falar já é sinal de que vale a pena.