Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 25 de março de 2011

VIPs

"VIPs é o típico filme feito com a estética dos publicitários, e pela primeira vez essa constatação não é necessariamente um demérito", diz o omelete. Pois vou assistir essa bobagem, porque estou precisando de ir ao cinema apenas para me divertir. Depois de ter conferido O Discurso do Rei e me perguntado por que um filme tão insosso foi o grande vencedor do Oscar 2011, posso perfeitamente me permitir uma bobagem sem fins lucrativos, ao contrário, por exemplo, do que seria assistir Cisne Negro porque quase todo mundo disse que é bom, muito bom (mas houve quem dissesse que não). E há um motivo adicional: uma reminiscência de infância, ou juventude talvez. Havia um radinho de pilha que eu colava ao ouvido, e na estação que sintonizava passava sempre uma voz agradável de locutor falando do VIPs motel: era tão bem feita a propaganda que devia ser um lugar muito agradável, de alto nível: pelo menos era essa a imagem passada. Havia uma leveza em tudo, e até hoje não consigo entender o modo como então escutava a palavra motel: escutava sem perguntar, sem saber, sem querer saber. Escutava inocentemente. Sabia vagamente o que seria um motel, mas isso não interessava. Queria mesmo saber o que era VIPs. Quem seriam os VIPs? Por que, me perguntava então, sem sentir qualquer necessidade de resposta, algumas pessoas eram chamadas de VIPs? Agora sei: Very Important Person. A pessoa mais VIP com quem esbarrei na vida, e nem sei se ele aceitaria o rótulo, foi Caetano Veloso. Portanto, vou assistir ao filme para finalmente saber o que é um VIP. 

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