Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

o sentido da vida

Voltei da sessão de análise de ontem convicta de que não sei qual o sentido da vida, sequer se ele é alcançável por qualquer meio ou recurso ― mas sei que a minha vida tem um. Toda vez que olho em retrospecto e revejo meu percurso acho-o tão improvável, tão cheio de pequenos milagres, que considero mesmo espantoso que eu possa me conhecer. Me vejo como uma sucessão de eus, um entregando o bastão ao outro mas seguindo um pouco junto. Porque se não sei o que vim fazer neste estranho mundo, isso não quer dizer que minha vida seja gratuita. 

6 comentários:

sonia disse...

É melhor a gente fingir que suspeita que a vida tem um sentido, caso contrário acabaremos como Cioran, dando chute no próprio pensamento. Cioran é genial, é necessário lê-lo, mas não levá-lo a ponta de faca!

Mariana disse...

Talvez a minha operação, ou da minha analista, seja mesmo essa, fingir que há um sentido: serve de consolo e alimenta a esperança.

Zé alberto disse...

Olá,
andei para aqui de trás para a frente como gato correndo atrás da própria cauda, para servir todas os pedidos aqui no café; agora, sentado, embalado pelo som do Arto Lindsay...

http://www.youtube.com/watch?v=DvqInwWbrJE&feature=player_embedded

...tava aqui de cotovelo apoiado no balcão, recordando o tempo em que afastado estive dos Blogs que frequentei durante algum tempo, porque deslocado me senti por outros impulsos, outras necessidades.
Visto o casaco, está frio, o tempo cinzento trouxe chuva no regaço...lembrava eu um "encontro desencontrado" com alguém que me desejava "outro". No fundo, o sentimento era recíproco...por esse acordo de vontades, love has been gone, como diz o cantor.

Desse tempo de imcompreensão mútua que me colocou fora da órbita de mim mesmo, como se de um "tigre à chuva" se tratasse, trouxe coisas boas comigo, de crescimento interior feitas.
No entanto, só quando senti que a água do tempo dissolvia na pele da memória as impressões negativas que me desorientaram, percebi pela "leveza" do corpo que o bem-estar comigo próprio tinha voltado, sentei numa cadeira e com vontade me confortei neste recanto "virtual" onde me sinto bem com a certeza de que vou construído algo que não me confunde, não pede que eu seja "outro".

Abraço!

Mariana disse...

Zé Alberto, que música bonita, não conhecia!

Curioso o que você diz, buscar um outro eu além do outro, além do que o outro pode ser/oferecer: dessa matéria são feitos os desencontros. Os encontros, eles não dependem de nossa vontade, creio. Vem-me à mente o filme "Asas do Desejo", do Wenders, e toda a potência que este filme coloca em cena acerca dos encontros, dos anjos. Imperdível.

Muito bonito o modo com que você traça o itinerário de seu retorno à órbita de si mesmo.

Bem vindo de volta ao blog!

Abraço!

Zé alberto disse...

Olá,
Mariana, você refere o filme dos anjos do Wenders, filme que tanto amei quando com ele me cruzei por varias vezes nos caminhos da adolescência. Esse filme, em que um anjo deseja tornar-se humano porque "caíu" de amor por um ser humano, uma trapezista, ela sim, que se sentia bem acima do chão, caminhando lá em cima, por sobre o fio, a linha da vida.
Filme encantador.

Abraço!

Mariana disse...

Tudo neste filme parece beirar a perfeição, a poesia inicial, os diálogos, as tomadas de rosto, o roteiro bem trilhado, sobretudo os anjos, que bom poder imaginá-los ao nosso lado...

Muito interessante o que você coloca sobre a trapezista, nunca tinha pensado por esse ângulo, ela pairando, se equilibrando sobre o delicado fio da vida, ele descendo, desejando o risco da vida.

É um filme para se ver e rever. Abraço!