Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

uma busca sem resposta

Esta busca, quando o homem vir deus num grão de areia, eu achei curiosa, e conduziu a um lugar inesperado. O intrigante, contudo, é que parecia, a princípio, outra coisa, um misticismo de manual, encontrar Deus em coisas triviais, uma flor que desabrocha, o sorriso de uma criança, a chuva que cai, clichês facilmente reconhecíveis na religião de superfície e no discurso de auto-ajuda. Porque a crise é inevitável, mas não se encontra Deus: Deus é de quem conseguir pegá-lo

“Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos ― tinha o olhar de quem tem uma asa ferida ― distúrbio talvez da tiróide, olhos que perguntavam. A quem interrogava ela? a Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distração aparece Deus. Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um ‘não’ na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de uma melhor que se apresente e a diga, estou há anos esperando. Enquanto isso as nuvens são brancas e o céu é todo azul. Para que tanto Deus. Por que não um pouco para os homens.” (Lispector, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.26-27).

A busca conduziu até aqui, e devo registrar que tenho participação nela, pois registrei areia em vez de argila, o que já foi retificado, como se ao ler/digitar um poema insensivelmente fôssemos dando um contorno próprio a ele. Por mais estranho que pareça, a verdade de cada um se revela no trivial cotidiano, no modo de olhar as pessoas e sustentar, por exemplo, no olhar, o que se é naquele momento, ou no modo de se banhar. Dois extremos, o social e o íntimo. É no momento do banho, mais do que no espelho, que se tem um contato íntimo com o que se é: o que a superfície oferece. A água descendo sobre o corpo mostra o que somos, e isso não se explica, é uma coisa que se experimenta. Ver o próprio corpo, aceitá-lo, sabê-lo seu e de mais ninguém, saber que nenhum corpo veio do nada: ele diz também das escolhas. Quem conseguir isso, amar o corpo como um recesso sagrado onde a vida acontece, saberá de Deus sem precisar buscá-lo em grãos de areia: pois todos somos feitos da mesma matéria, e olhados à distância, talvez não passemos mesmo de grãos de areia ante a aparente infinitude do cosmos.

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