Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 23 de abril de 2011

o silêncio das palavras

Um narrador desbragado e típico de Raduan Nassar afirma esta preciosidade: "já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio." As palavras pairam diante de minha inquieta atenção, um desejo pelas palavras como se nelas estivesse a chave. Não está, porque não há nenhuma chave. Quase toco as palavras, e é um mundo de silêncio e vozes e ecos que repercutem naquilo que vai se escrevendo por força de desejá-las. Não posso dar-me o luxo de fazer acordos perfeitos com o mundo: ele me exige, exige minha performance pela linguagem no exercício da profissão, o que resvala para o barulho. Mas estou tateando acordos comigo mesma: sempre que posso, dou-me o prazer do silêncio. Que pode ser entendido também como prazer da escrita. A escrita que se constrói como um amor inútil, amor pelo amor, porque já não se consegue viver sem ela:

SOBRE ESCREVER

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia. 

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.254.

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