Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 23 de outubro de 2011

broken mirror

Picasso, Girl Before a Mirror, 1932 (aqui)

Diante do espelho quebrado, a ilusão da ilesa face original. Espelho quebrado ― contingência com que mais cedo ou mais tarde a face vai se defrontar. Não há como restaurar o espelho. Não há como prescindir de uma face. Que nela não se espelhe, qual mosaico tênue, o espelho quebrado (vísceras íntimas) do sujeito. Mas, fugindo à rigidez da armadura quixotesca, possa a face não mentir ao desencontro com o espelho. 

2 comentários:

sonia disse...

Fiquei pensando se Picasso não teria se inspirado nesse estilo cubista depois de ter, acidentalmente, quebrado o espelho onde se mirava :)

Mariana disse...

Acho que Picasso só representou o que já via sempre: todos nós vemos o outro através de um espelho quebrado, distorcido. Há uma passagem de Kafka, naquele livro que você me indicou, que inclusive postei aqui:

"Quando visitava uma exposição de pintura francesa numa galeria de Praga, Franz Kafka ficou diante de várias obras de Picasso, naturezas-mortas cubistas e alguns quadros pós-cubistas. Estava acompanhado na ocasião pelo jovem Gustav Janouch, escritor de quem foi mentor na adolescência e que deixou um dos mais importantes depoimentos sobre o poeta tcheco ― Conversas com Kafka. Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka ponderou que Picasso não pensava desse modo: ‘Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência’.”

CARONE, Modesto. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.37.