Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

livro livre

A língua portuguesa traz a liberdade nos livros, pelo menos etimologicamente.

2 comentários:

Cristiano Marcell disse...

Certamente!

Mariana disse...

No dicionário, o antepositivo liber- tem dois sentidos, e nos dois casos o dicionarista remete para o antepositivo livr-, quando então o leque de sentidos se abre. O primeiro campo semântico recobre o sentido de 'livre' e incontáveis palavras associadas. O segundo campo semântico é bem curioso:

"antepositivo, do lat. liber,libri 'película que se acha entre a madeira e a casca exterior (cortex 'córtice'), o liber sobre o qual se escrevia antes da descoberta do papiro; o livro mesmo escrito sobre essa matéria', já em Plauto; o nome se conservou mesmo quando se deixou de escrever sobre o liber, que não era feito com o córtice do papiro, mas com tiras cortadas do caule; parcialmente mantido no românico; os outros derivados se referem todos ao sentido de 'livro' e não têm nada mais em comum com o primeiro sentido."

De fato, quando se estuda botânica, uma das partes do caule das árvores que se conhece é o líber.

O curioso é pensar que a palavra livro, que é um objeto que se abre em busca do que seu interior promete, tenha derivado de algo que significou casca, a exterioridade.