Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Emily Dickinson

O Auto da Fé e o Dia do Juízo
Nada são para a Abelha -
É a separação da sua Rosa
Que na Miséria a deixa -

Auto da Fe - and Judgment -
Are nothing to the Bee -
His separation from His Rose -
To Him - sums Misery -

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.262-263.

10 comentários:

Zé alberto disse...

Olá Mariana, gostei muito deste pequeno e tão revelador poema da E. Dickinson. Peço-lhe que, se a isso a sua vontade se dispuser, fale um pouco do miolo desta reflexão da autora inglesa.

Abraço.

Mariana disse...

Zé Alberto, confesso que fiquei instigada com sua sugestão, e em nebulosa sei o que dizer. Apenas quero decantar melhor o miolo dessa reflexão. Volto amanhã.

Abraço.

Marcantonio disse...

Agora, além de admirado com este poema, fiquei curioso sobre o resultado da proposta do Zé Alberto...

Mariana disse...

Prezados Zé Alberto e Marco: acho que um poema nos passa sensações que traduzimos numa expressão da ideia.

A metáfora central deste poema, assim me parece, é a abelha, ou melhor, seu movimento, ao modo de uma fábula concentrada, e focalizando um animal gracioso e pouco usual em fábulas. Mas aqui há um refinamento, porque o poema pode estar além da metáfora, no sentido da possibilidade de a abelha ser abelha mesmo, e não uma projeção humana. Seja como for, o movimento nela encenado é humano.

Este movimento é muito interessante. Há outros poemas de E.D. em que ela diz que quem quiser o céu terá que encontrá-lo aqui, não num além projetado pela religião. Então, por exemplo, esta desistência tem uma perspectiva surgida com o Romantismo, em que o plano da transcendência cede ao plano terreno: daí o sofrimento profundo do herói romântico: procurar o céu aqui.

Acho muito interessante que o início do poema diz justo isso: esse além não importa, não significa mais nada. O "essencial" a cada um (sua rosa) precisa ser alcançado aqui: sua privação é uma espécie de miséria (material ou espiritual ou as duas coisas juntas) que nenhuma promessa de felicidade vindoura pode aplacar ou compensar. Quer dizer, o presente é o que conta. E isso é bastante sério. Subvertendo o lugar comum de que o essencial é invisível aos olhos, pelo contrário os olhos e o mais precisam ter a experiência do
essencial, encontrar e alcançar a rosa. Pela diligência que a abelha representa, esse essencial seria o todo dia cotidiano em sua riqueza de possibilidades.

Num verso simples, "A separação de sua Rosa", o poema revela muito: o que é a Rosa de cada um? O que significa separar-se dela? Há uma beleza envolvendo a Rosa, a palavra Rosa (assim como a abelha, vista de certa perspectiva, pode ser muito bela), de forma que se pode pensar que nesse cotidiano comparece alguma coisa muito importante, o encontro com a própria possibilidade da beleza humana, no mais amiúde e humilde bater de asas para alimentar-se e aos demais, polinizando a natureza: a separação disso, da passibilidade desse movimento, que é vida, não encontra qualquer compensação num além vindouro. A separação da Rosa seria a frustração da vida que cada um traz em si, e então a poeta lança mão de um termo muito forte para dizer o alcance disso: Miséria.

Naturalmente que há outras e muitas possibilidades de se ler este poema, e talvez tenha-o postado porque em seu enigma condensado me dizia muito, como continua dizendo - o que é a Rosa de cada um? Espero que o recorte que fiz tenha antes aberto esta questão.

No mais, obrigada por essa interlocução.

Abraço.

Zé alberto disse...

Mariana, gostei muito da sua análise, na forma como você a pinta, como a natureza põe cuidado e aplicação quando pinta os sugestivos tons das pétalas da rosa ou define os meticulosos traços do perfil da abelha. Profundo e belo. obrigado!

Abraço.

Marcantonio disse...

Mariana, a sua interpretação coincide com a minha. Haverá mesmo outras? Num certo sentido, uma simples abelha pode fazer perecer patéticas nossas pretensões de projeção e transcendência.

Abraço.

Mariana disse...

Prezados, eu às vezes sou tão centralizadora que esqueci de perguntar, quando o Zé Alberto lançou o desafio e o Marco endossou, se vocês não tinham sugestões acerca do poema: fui logo tomando para mim a tarefa de falar.

Depois, no embalo do dia, e pensando longe, fiquei matutando outra coisa: a arte inerente ao próprio fazer poético. Há arte na rosa, há arte no ofício da abelha. Mas isso já me seria mais difícil de falar, embora o Zé Alberto tenha deixado uma bela sugestão em seu comentário.

De todo modo, Marco, você mirou bem esta simples abelha, e com mão de artista.

Abraço.

denise bottmann disse...

muito lindo.

um pouco marginalmente, bonita tb a sugestão amorosa no tratamento "he" para a abelha

denise bottmann disse...

pensando ainda nessa imagem do amor masculino/feminino, que o zé não conseguiu manter na tradução: difícil... se ainda fosse um zangão!
:-))

Mariana disse...

De fato, Denise, eu estranhei os pronomes, mas agora que você falou fica claro que uma sutileza se perdeu na tradução. Obrigada!

O que mostra, por outro lado, a concentração de sentidos em poucas imagens na poesia de Emily Dickinson.

:)