Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 23 de outubro de 2011

geografia

Ainda no território dos sonhos, num deles eu me via, nitidamente, passando de ônibus em frente ao local onde houve a explosão do restaurante, na Praça Tiradentes. É quase certo que, no intrincado de ruas que é o centro do Rio de Janeiro, eu já tenha passado por lá, certamente a pé, procurando alguma loja ou quem sabe mesmo apenas passando. Eu passava, no sonho, de ônibus ― pois que no dia do acidente eu me dirigia de ônibus para o Centro e ouvia as conversas a respeito, um dos relatos particularmente inusitado ― e olhava o local, subitamente reconhecido a partir das imagens da mídia e de um imaginário difuso, com uma familiaridade incômoda, um reconhecimento súbito do desastre já acontecido, e que portanto não mais me ameaçava, aquele desastre, é bom frisar, que no entanto custou a vida de quatro pessoas que não sabiam que, naquele dia, não era para passar ou estar ali ―, mas ao mesmo tempo passando em frente ao local do crime, protegida pelo ônibus. E essa proteção remete ao estranho relato que escutei aquele dia no ônibus, e às coisas que me aconteciam naquele dia enquanto me dirigia à zona sul para mais uma sessão de análise. Há nisso tudo intrincadas questões de geografia, não a aprendida na escola.  

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