Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 10 de dezembro de 2011

força

Ainda sobre a bondade, ocorreu-me depois que ela precisa vir acompanhada de alguma espécie de força, força aqui equivalendo à ausência de medo. Não pode haver bondade na fraqueza, porque esta faz par com o medo, e o medo está na origem das piores vilanias que o homem pode conhecer: traição, vingança, perjúrio, difamação, desejo puro e simples do mal. O medo faz o homem vacilar,  fraquejar. Por outro lado, a força excessiva pode destruir a bondade, porque confunde-se com poder. Na trama pensada por Foucault entre poder e conhecimento, fico imaginando em que interstícios a bondade teria ensejo de acontecer. 

9 comentários:

Jamil P. disse...

Mais que o medo, acho que o orgulho e o egoísmo estão na raiz de todos esses males. Ter medo não é ruim, ruim é deixá-lo nos dominar.

Mariana disse...

Sabe que esses dias, ao falar dos deuses da mitologia grega, eu andei assuntando com os alunos acerca da origem do mal? Pois seja a caixa de pandora, seja a árvore bíblica, o homem parece buscar uma explicação exterior a ele para a origem do mal.

Sim, ter medo não é ruim, muito pelo contrário, é uma forma de proteção.

Abraço.

Jamil P. disse...

Acho que, na alegoria bíblica, ao menos, a origem do mal não é exterior ao homem; não estaria no fruto ou na serpente, propriamente, mas na vontade do homem; isso quanto ao mal moral; quanto ao físico, decorreria da ausência do bem. Minha compreensão desse tema é um tanto escolástica.

Pois é, tanto o covarde como o corajoso têm medo; a diferença está como se posicionam diante dele.

Mariana disse...

Minha compreensão desse tema é um tanto confusa... Olha, antes de cursar Letras, por puro amor à Literatura, eu fiz Biologia, o curso completo, na UFV, na época uma referência em Universidade. Então sou bióloga também. E, é claro, tive um contato mais intenso com a teoria da evolução orgânica. Quer dizer, o mal, nessa perspectiva, está no próprio homem, e ele procurou nos mitos uma explicação em parte exterior porque assim ficava mais fácil.

Tanto que antes de falar dessa coisa da bondade, eu havia postado a sequência inicial de 2001: uma odisseia no espaço, "A aurora do homem", que mostra sem qualquer photoshop mítico, digamos assim, a estreita relação entre o que chamamos de homem e a violência.

Repara só nesse texto da Maria Rita Khel, intitulado "Delicadeza":

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza.

Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.

O cientista político Renato Lessa, autor nesta mesma coletânea, utilizou o naufrágio como metáfora do humano em nossos tempos. Proponho acrescentar a essa a metáfora do atropelamento, que expressa perfeitamente a relação do sujeito contemporâneo com o tempo. Não por acaso a palavra já está incorporada à linguagem cotidiana para expressar os efeitos da pressa sobre a subjetividade. Dizemos, com frequência, que fomos atropelados pelos acontecimentos ― mas quais acontecimentos têm poder de atropelar o sujeito? Aqueles em direção aos quais ele se precipita, com medo de ser deixado para trás. Deixamo-nos atropelar, em nossa sociedade competitiva, porque medimos o valor do tempo pelo dinheiro que ele pode nos render [...].

A velocidade normal da vida contemporânea não nos permite parar para ver o que atropelamos; torna as coisas passageiras, irrelevantes, supérfluas. [...] Corremos na intenção de não perder nada e perdemos o essencial: o desfrute do próprio caminho. A vida, no entanto, não é exatamente isso, travessia?"

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453-454.

Jamil P. disse...

Legal saber que também é bióloga, Mariana. Sempre gostei de Biologia, até mais que Geografia, que também amo; durante um tempo pensei em cursar Biologia, mas acabei fazendo Direito, em razão das oportunidades e mercado de trabalho.
Ótimo esse texto que você citou, muito obrigado! Encontreio-o no site da própria autora http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=266

Mariana disse...

Jamil, só recentemente pensei mais a sério na questão financeira - e em outras que o tempo trouxe. Sempre fui muito idealista, o que, em se tratando do nosso país, costuma trazer mais dor de cabeça que recompensas pessoais.

Na Biologia eu buscava algo que não encontrei. Então me apaixonei pela Literatura e resolvi seguir a carreira de Letras: quer dizer, o investimento intelectual que não fiz na Biologia eu fiz na Literatura. Tudo isso foi um enredo bem complicado, em especial no aspecto financeiro.

O texto da Maria Rita Kehl é bacana. Eu tive a oportunidade de assistir a uma conferência dela, e foi marcante, uma percepção corajosa e incomum, quando se pensa na instituição "psicanálise".

Jamil P. disse...

Essa coisa do idealismo da juventude é um tanto engraçada. No começo da faculdade, meus colegas, na faixa de 17, 18 anos, sonhavam "realizar a Justiça", como acadêmicos ou já "operadores" do Direito. Passados os primeiros anos da graduação, quando começaram a estagiar e a ganhar alguns trocados (bolsa-auxílio), abdicaram daquele sonho inicial e passaram a ter como objetivo principal encher os bolsos de dinheiro. No Brasil, é bonito ser idealista, mas apenas nos romances, nas novelas, na TV, etc.
Acho que você fez o certo. Eu fiz dois anos de faculdade de Música, mas acabei desistindo e optando pelo Direito, para não passar fome depois.
Obrigado por falar um pouco mais sobre sua trajetória profissional e pessoal, Mariana.

Mariana disse...

Jamil, eu é que agradeço a atenção. Minha trajetória foi um tanto sui generis, embora essas mudanças sejam relativamente comuns. Digamos que, a partir do momento em que coloquei minha bússola no rumo das letras, aos poucos ficou claro para mim que meu doutorado teria que ser em Literatura Brasileira, e isso eu consegui. Foi um sonho bastante acalentado, e eu não medi esforços para alcançá-lo.

Agora, essa questão do Direito, quando você fala, me faz lembrar um texto da Clarice em que ela assume ter cursado Direito por nutrir certo idealismo, e mesmo assim não seguiu a profissão - mas o lance dela era bem outro, né?

Jamil P. disse...

Isso me lembra aquela frase de que não somos nós que escolhemos "x", mas é "x" que nos escolhe; onde "x" é alguma profissão ou arte. No caso da Clarice, a ideia fica mais evidente, já que, como profissão, ela escolheu o Direito, que acabou não exercendo; por outro lado, dedicou a vida à Literatura, como amadora, como ela mesma dizia. Eram outros tempos e o casamento ajudou-a no seu propósito.