Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 8 de janeiro de 2012

amor à vida

Tanto por dizer ― e fica-se no mesmo filme da conveniência, das convenções. O que uma pessoa diz à outra? Fora “como vai?” ― perguntou em uma de suas crônicas Clarice Lispector. Mas é necessário dizer, não se escapa das palavras, palavras que atendam o chamado do lado desperto da alma, e que se oculta sob camadas de convenções. Revolver esse entulho e daí extrair as palavras que interessam (a quem possa interessar), as palavras que fazem o ar circular melhor pelas células do organismo. Na escrita distingo o que só poderia chamar de sagrado. Mas as palavras não são inocentes. 

2 comentários:

sonia disse...

Há mesmo tanto por dizer, e ao mesmo tempo não há nada a dizer. Como em geral as pessoas com quem cruzo são as que não sustentariam um diálogo mais sensível e profundo a respeito das questões existenciais, ainda bem que existe o "como vai, tudo bem?" e fica-se por isso mesmo. Quando tem que dar liga, aí acontece como por acaso e é muito bom!
Abraço.

Mariana disse...

Sônia, enxergo na escrita um potencial quase infinito, ao contrário da função fática da comunicação, preenchida pelo "como vai?". É claro que há situações em que de fato o encontro acontece, mas, como diz um poema de Álvaro de Campos, somos viajantes numa noite escura. Abraço.