Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 8 de janeiro de 2012

feminino?

Como em todos os processos cujo cerne se desenrola no momento presente, é difícil às mulheres perceber o grau potencial da transformação que estão vivendo. Se é que elas querem efetivamente essa transformação, já que tudo pode não ter passado de um mal-entendido forjado por novas configurações do capitalismo, que subjazem a outros processos históricos de mesma monta, como a substituição do trabalho escravo pelo assalariado. Nada mais misógino que a publicidade atual, mola propulsora de tudo o mais.

4 comentários:

sonia disse...

Nesse ponto eu tive muita sorte! Comecei a trabalhar quando essa selvageria ainda não existia, tanto é que poucas mulheres secretárias dominavam o Inglês e eu nunca tive problema em escolher onde queria trabalhar. Mas quando me aposentei a coisa começou a "pegar" até o dia em que vi num site de bate-papo uma mulher gritar: QUERIA SABER QUEM FOI A FDP QUE INVENTOU QUE É BONITO MULHER TRABALHAR FORA!!!!!

Mariana disse...

Sônia, esta é uma fala comum, da volta às funções do lar, a nostalgia de um tempo supostamente melhor. Uma variante: bom mesmo era no tempo da ditadura.

Ocorre que ninguém inventou nada sozinho, são processos históricos. E a questão não se reduz a trabalhar fora ou não. São papeis sociais longamente trabalhados pelo imaginário. O problema é querer continuar correspondendo a certa expectativa social do que é ser mulher, no fim das contas uma questão cultural.

Então há formas sofisticadas de violência simbólica contra a mulher, que esta não percebe como tal, pois na aparência é um protagonismo feminino. As mulheres, nesse sentido, ainda não saíram de casa.

sonia disse...

A coisa é funda, Mariana. Já imaginou se TODAS as mulheres tomassem uma droga que lhes revelasse, ao mesmo tempo, o quanto estão sendo violentadas? Dá pra imaginar a revolução que fariam nesse mundo? Fico até admirada de haverem tão poucas lésbicas :)

Mariana disse...

Pois é, ainda estamos no patriarcado, a lei do pai, do homem. Ingenuidade é acreditar que 50 anos vão reverter, de uma hora para outra, 50 ou mais séculos. É como no Admirável Mundo Novo, do Huxley, as pessoas tomam drogas para não perceber a violência a que são submetidas. Quanto às lésbicas, acho que são mais numerosas do que as aparências sugerem.