Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

[Canto Primeiro, Fundação da Ilha, XXI]

Decide-se a fazer os cactos,
quer dizer: simetria. Urgência
em colocar espinhos onde
estariam as folhas gordas
dos facetados mastros verdes
de gomos estandardizados,
duros, fortes, blindados como
arma de destruição e fúria,
sem desejar sequer um ramo
para dar pouso ou sombra ou fruto
ou segregar resina; mas
advinha-se o sangue às pontas
estripando vaqueiros, e uivos
de ventos trespassados quando
distraídos perpassam. Vê-se
a provisão constante dágua
contra a seca: sem ter raízes
profundas, para não fixar-se
demais, e ser nos ares um
mirante, contemplando os céus de
fogo, e embaixo a terra morta,
e lá longe ― pedrouços, ossos,
luas vermelhas, céus de fogo.
Mandacarus, mandacarus,
Que técnicas voz fez tão torres
nesse verde marfim de caule
que não dá lenho para quem
deseje um poema, um navio
manso, mas encarnais ossuários
com tutanos de seiva oculta
manancialmente para bois.

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Ediouro, s/d, p.24-25. 

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