Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mas

Eu queria poder escrever (se é que posso) prescindindo do mas (e correlatos). Há muito penso nisso, como uma ideia que borboleteia e vai embora. Quer se trate da coordenada adversativa, quer se trate da subordinada concessiva, é sempre o mesmo esteio, em que se toma pela mão o argumento secundário para em seguida dá-la ao que de fato interessa.  O argumento é colocado num patamar de certa relevância para em seguida ser abandonado. Ocorre que todas as vezes que tentei dizer alguma coisa sem o mas não consegui. É como se fosse um mecanismo de pensar longamente assimilado. Por exemplo, tenho vontade de dizer que a chuva que agora cai me passa uma sensação de profunda paz, mas não posso dizer isso sem pensar no que a chuva representa todos os anos, em especial nesta época do ano, nos lugares em que ela faz estragos, causa danos, pelos motivos que todos já conhecem. Não posso apreciar a chuva que cai inocentemente (o advérbio aqui modificando potencialmente dois verbos deste enunciado), e este é o mas que atravanca a beleza desta chuva que afinal só está fazendo seu papel de água em movimento na natureza. Que o homem tenha distorcido os ciclos naturais, de nada disso a água sabe. A água, que agora cai com força, não tem contradição.

2 comentários:

Marcantonio disse...

Que texto ótimo! Sabe que sinto a mesma coisa?! Gosto da chuva, mas me sinto culpado de desejar que ela venha nesse tempo de ciclo de tragédias. Então consola que ela não esteja nem aí para os meus desejo.

Difícil, para ser óbvio, e viver sem mas nem porém, sem todavia, em curta via cheia de adversidades e adversativas. Hum, isto saiu com aliterações...

Abraço.

Mariana disse...

Muito obrigada. Eu sempre gostei de chuva, "mas" nos últimos tempos ocorre me sentir culpada em apreciá-la, especialmente aquela chuva forte, com jeito de tempestade. Acontece que o Rio de Janeiro é diferente de tudo que eu já vi. Em outros tempos e geografias, a chuva era apenas chuva.

Lembro-me agora da proposta da revista Argumento, que circulou na década de 70: "Contra fato há Argumento". A questão do mas, do porém, de sua inevitabilidade, é um pouco a possibilidade do argumento, muitas vezes contra a dureza dos fatos. Diante da pedra já se fez poesia. E da chuva, água mole em pedra dura?

Abraço.