Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ingenuidade

A ingenuidade é a experiência da cegueira existencial. Há sempre um momento-lobo espreitando a distração do cordeiro. Ocorre que não é possível viver em atenção constante, viver imaginando todas as variáveis possíveis de uma situação, até porque as situações costumam sobrepor-se, e as variáveis imbricar-se, sofrendo imprevistas deformações. Alguém atulhado de informações sobre o mundo será menos ingênuo?

3 comentários:

Cristiano Marcell disse...

Tem razão!

Helena Dias disse...

Mariana, é tanto assim!
Eu, no tempo da inocência, defendia o direito a ela, apesar dos lobos. Depois, eles levaram-me carneirinho a carneirinho até os campos da credulidade ficarem absolutamente vazios e eu jurar a mim própria que nunca mais me apanhariam desprevenida. E, no entanto...

Abraço.

Mariana disse...

Helena, acho que minha inocência resistiu o quanto pôde, até que as evidências (ou os lobos) começaram a falar por si, rugir, melhor dizendo. Depois disso, um pouco da inocência antiga sobreviveu, mas à sombra, sabendo do lobo, de suas muitas formas. Então não é mais inocência, é distração. Eu também disse, mais de uma vez, nunca mais. E sempre custa caro, tanto uma coisa quanto outra.

Abraço.