Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

antes era perfeito

Ontem, depois da consulta ao bem-humorado médico ― não adianta, é inútil ―, e também porque ela havia sido assunto na sessão de análise: “Ter nascido me estragou a saúde.” (Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.408).

2 comentários:

Luiz disse...

Talvez o consolo seja saber que depois será perfeito? Um abraço!

Mariana disse...

Acho que sim, pelo menos de uma perspectiva clariciana... Mas eu sou um tantinho egoísta, não sei o que virá depois, e não queria barganhar o incerto pelo duvidoso. Sei que nossa experiência cotidiana é trágica. Talvez seja isso que esteja sendo dito no aforismo elíptico da Clarice... Outro dia estava lendo uma matéria no Globo sobre as condições deprimentes (pavorosas mesmo) em que se encontra no Brasil a população carcerária que sofre de transtornos mentais ou psíquicos. Você lê aquilo e pensa que nós, humanos, somos a forma mais cruel de vida na Terra. Hoje estava pensando, de novo, no silêncio final de Severino...

Outro abraço.