Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

sobre os mortos

Durante um dos passeios em Paraty, o guia explicou que a praça principal da cidade foi construída sobre um cemitério desativado. Então ele passou a explicar que nem todos os mortos foram transferidos para o novo cemitério, restando ali, sob solo frequentado por ávidos vivos. Os guias, mesmo quando pensar estar divertindo, acabam contando a história da cidade, marcada por inúmeras segregações.
atual cemitério da cidade

3 comentários:

sonia disse...

Agora acabei de descobrir porque não gostei de Paraty. Não via a hora de ir-me embora daquela cidade. Realmente, detestei algo que não conseguia definir...
Está explicado. Até a Radiestesia explica isso com instrumentos de mediçao de energia.

Mariana disse...

Sônia, eu gostei da cidade, talvez volte, mas sentia que precisava pisar naquelas pedras com cuidado, não porque irregulares, mas pelo que elas contam. Agora, o pouco que ouvi acerca da história da cidade (dos guias pouco profissionais) é assustador. E acho mesmo que as cidades históricas sofrem desse mesmo mal, principalmente pelo que contam de nosso período colonial, da escravidão, etc. Quando quis escrever especificamente sobre os mortos, pensava em coisas que Walter Benjamin disse, acerca dos perdedores...

sonia disse...

Uma vez estive em Ouro Preto (em 1990) e almocei num restaurante na pracinha principal da cidade. Senti um clima pesado no local. Depois disseram que ali era onde prendiam os escravos que se rebelavam. Mariana, a energia ficou tão pesada que a gente podia sentir no ar. Péssima idéia de transformar o local em restaurante... :)