Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

garrafas ao mar: a víbora manda lembranças

Enquanto assistia ao documentário sobre Joel Silveira, lembrei-me de uma crônica dele lida já faz tempo ― e a memória, seletiva, guardou resquícios desta e mais duas ou três ― em que ele relatava estar andando sozinho num frio dezembro europeu (não me recordo a cidade, e talvez seja só minha a impressão de que era Natal) e deparou-se, de repente, num vitrine de livraria, com um livro da Clarice Lispector ― creio que Perto do coração selvagem, se a memória estiver me ajudando ―, e então ele sentiu seu coração subitamente aquecido, por aquele encontro, por encontrar alguém familiar na fria distância em que se encontrava, por encontrar uma garrafa lançada ao mar. Escrever é imperioso ― este é o maior testemunho que ficou da brilhante geração modernista de cronistas e repórteres brasileiros, porque a literatura era uma espécie de morada, parada obrigatória deles e delas.

8 comentários:

sonia disse...

O bom jornalismo já teve sua época! Joel Silveira é um exemplo.
Gostei de seu texto, Mariana.

Mariana disse...

Obrigada, Sônia. O Joel Silveira já me fez muita e boa companhia, o que traduz, de certa forma, o prazer de ler esse jornalismo antigo, dito literário. O jornalismo de hoje é informativo (en passant eu falei disso na minha tese, a mudança de paradigma pelo qual a imprensa passou nos anos 50 e que influenciou inclusive a crítica literária). Como disse o Raul Seixas, eu não consigo ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz. Também em Admirável Gado Novo, Zé Ramalho fala:

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal...
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou...

sonia disse...

Zé Ramalho foi outro gênio na sua especialidade.


Gostaria de passar um link para que vc assista o quanto pode ser perverso o ser humano.Veja em tela grande. Do blog:


http://www.youtube.com/watch?v=ceBaB3mFYTY&feature=player_embedded

do blog abaixo:
http://facedaletra.blogspot.com.br/2013/02/despertares.html

Mariana disse...

Obrigada, Sônia, vou conferir o vídeo. Abraço.

Mariana disse...

Sônia, boa noite.

Volto aqui para comentar o vídeo, e dizer que meu desconforto é de outra ordem: sou plenamente consciente de minha participação nesta e em outras formas de crueldade que nossa espécie pratica: eu poluo o meio ambiente, mesmo quando acho que estou minimizando meu impacto sobre a natureza; eu consumo, não compulsivamente, mas consumo; eu sou na maioria das vezes indiferente aos moradores de rua e àqueles/aquelas que têm mais problemas que eu; eu pago uma analista para atenuar minha culpa, que não é pouca, para que a (minha) vida possa seguir num conforto decente, material e espiritual; eu me reconheço produzindo o lixo encontrado naquelas aves, porque em algum lugar o lixo que produzo vai parar, e eu não faço nada para tentar mudar a forma com que as autoridades encaram a destinação final do lixo: não vou aos jornais, não me lanço candidata à vereadora, não converso com os vizinhos sobre isso, não uso a blogosfera para protestar/denunciar.

Por outro lado, a máquina fotográfica utilizada pelo rapaz que está fazendo as imagens provavelmente foi made in chine (por falar nisso, acabei de pedir uma quentinha no chine in box), país que vem se notabilizando pelo aviltamento das condições de vida dos trabalhadores. Consumo tecnologia cuja procedência desconheço. Não dispenso ar condicionado no Rio de Janeiro, e quando estou lendo as piores coisas, no jornal ou na internet, estou fazendo-o no conforto do meu lar, lar de que eu cuido quase como uma extensão de mim, porque é muito bom ter (ou poder alugar) uma casa, que a gente vai mobiliando e arrumando segundo alguns padrões até sofisticados. Na minha biblioteca há Nietzsche, Dostoiévski, Deleuze, Clarice, Guimarães Rosa, e alguma poesia. E é neles que eu efetivamente encontro minha possibilidade de salvação, a possibilidade de não tornar o mundo pior do que eu o encontrei, passado o choque do desencanto. Logicamente, não saio jogando lixo por aí, mas o lixo que produzo não fica na minha casa, porque, senão, não poderei chamá-la de lar...

Quando falei de Paraty e dos mortos, queria dizer um pouco isso, que eu acho impossível subtrair-me ao mundo, mas que eu posso tentar ser cuidadosa, porque, a contar da perspectiva histórico-arqueológica, nós, os vivos, somos uma pequena casquinha em relação a todos os mortos de todos os tempos, e estamos em aparente vantagem sobre eles - já assistiu "Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos"?

http://www.youtube.com/watch?v=maDnJcVbAoQ

Mas também vale "Asas do Desejo", de Wim Wenders. Não sei se há salvação possível fora da arte, mas não sei justificar racionalmente isso, apenas entendo.

sonia disse...

Você poderia experimentar ser menos exigente em relação a tudo o que de certa forma faz parte da sua vida. Se não fizer isso vai acabar num beco sem saída. A vida já é feita para nos atormentar, não tenha dúvida. Mas podemos, só pelo fato de perceber as coisas, fazer o mínimo que não custa muito. Já houve tempo em que eu achava que era o pára-raios do mundo. Hoje, não. Nao me sobrecarrego de pensamentos a respeito do quanto estou poluindo, mas faço pequenos esforços diariamente, que não me custam nada. Separo o lixo com cuidado,por exemplo. Na minha cozinha há dois recipientes para o lixo: um para o reciclável e outro para o orgânico. Faço isso porque me sinto bem colaborando com o pouco que posso. Por sorte aqui em Santo André eles reciclam o lixo em praticamente todos os prédios e casas. Não sou consumista, vivo cada vez com menos tralhas e mais qualidade do pouco que tenho. Não abro mão de leitura, música, alimentaçao saudável e caminhada. Não posso ver uma plantinha seca que logo vou regar. Enfim, encaro minha existência como um micro grãozinho de areia numa praia imensa, mas não sinto o menor sentimento de culpa por não poder fazer tudo o que queria. Seria transformar, o que me resta de vida, num verdadeiro inferno.

Acho-a uma pessoa valorosa, como poucas que conheço,(mesmo sem conhecê-la pessoalmente,enxergo-a por sua escrita) mas também um pouco exigente demais consigo mesma.

Estou muito sensível a algumas coisas, a ponto de chegarem lágrimas aos meus olhos por coisas que a outros talvez não tenham a menor importância. Procuro não me aprofundar muito nisso, para não viver deprimida. A vida não é justa. Mas eu estou disponível se for necessário. Só não vou procurar sarna pra me coçar sem ser solicitada. Sei exatamente minha missão aqui. Isso é um privilégio. Tenho mágoas que nunca cicatrizarão, mas isso é assim mesmo, não me revolto. Considero-me uma sobrevivente, apesar de tudo.
Você não tem que sentir culpa por nada. Apenas agradeça pela grande alma que tem e pare de perder tempo pensando que tudo polui (seu pensamento viaja longe, veja como comentou sobre a máquina fotográfica "made in china") aproveite e desfrute de tudo o que a vida está lhe dando neste momento. VOCÊ MERECE!

sonia disse...

Vou assistir ao video amanhã, para aproveitar bem. Hoje já estou com um pouco de sono. Obrigada, querida. Boa noite a você!

Mariana disse...

Sônia, diferenças de perspectivas são sempre saudáveis: assim escapa-se do fascismo do pensamento único.

Abraço.