Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

companhia de viagem (a extrema precisão de um poema)

CANÇÃO DE VIDRO

E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...

Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.

Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...

E é tão puro o silêncio agora!

Mário Quintana. Canções seguido de Sapato florido e A rua dos cataventos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.20. 

2 comentários:

Luiz disse...

Comecei a ler este livro do Quintana ainda ontem. Passei por este poema. Estou tentando encontrar um pouco de calma no mar dessas canções...

Mariana disse...

Quando li este poema, ou melhor, quando deparei-me com ele no livro que levei na viagem, aconteceu uma incrível coincidência entre a minha necessidade de calma e a calma suspensa (e tensa) nele encenada. Não é que ele me trouxe calma, mas apaziguou-me com aquela necessidade, como se um anjo estivesse me dizendo que meus confusos sentimentos eram legítimos...

Boa sorte na defesa, o mais difícil você já fez.

Abraço.