Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

brasil: infância mutilada

À leitura da matéria publicada n’O Globo de hoje, “Filhos de presos torturados carregam a dor do passado”, foi inevitável a comoção, porque violência contra criança ultrapassa qualquer fronteira da razão ou do entendimento. Uma dessas crianças, Carlos Alexandre Azevedo, submetido à violência dos generais quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de idade, suicidou-se na última semana. A mim, nascida em 68, ocorre-me ter então vivido uma outra face da moeda, passando a infância num interior rural anônimo, anódino, vazio de experiências e de poucas expectativas, e que bem depois entendi como também uma forma perversa de fazer a repressão acontecer, porque não saber de nada é quase nada saber.

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