Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

finalzinho da tarde

Um temporal surpreendeu ontem quem estava na cidade. Eu estava a própria Macabéa: fazendo chover e dentro de uma loja de ferramentas. Quando a chuva deu trégua, saí em busca de uma lanchonete, haja vista a dificuldade de retornar para casa ou qualquer lugar naquele momento, depois da água toda que caiu ― mas, ao mesmo tempo, que chuva, suavizando o contorno de um dia excessivamente quente e intenso. Então aconteceu uma coisa que não é inédita comigo naquela geografia: seja pela confusão do momento, seja pelo que ia comigo, eu saí mais ou menos em direção à rua da Colombo, alternativamente a rua do Rosário, no outro lado da Rio Branco, e fui andando, me orientando pelo que conheço do centro da cidade, mas pouco depois percebi que havia retornado ao ponto de que parti, nem mais nem menos, pela mesma rua. Seria redundante dizer “sem percebê-lo”. Não é, porque nada ilude e confunde mais que a aparência que as coisas por vezes tomam. Elas me diziam que eu estava indo para algum lugar, embora faltassem referências mais concretas sobre os lugares que eu tinha em vista, e mesmo a determinação firme de chegar até eles. Sobretudo as aparências, travestidas de evidências, me diziam que eu estava seguindo em frente, progredindo, não desenhando com meus passos um círculo. Percebido o círculo, não havia nada mais a fazer senão rir e começar de novo, agora prevenida das armadilhas daquela geografia. Há tanta bobagem que se diz em torno do errare humanum est.

2 comentários:

sonia disse...

Se pensarmos que a terra é redonda, acabamos todos andando "em circulos", hahaha...eu sou mestra em me perder. Até, e principalmente nos meus sonhos, que são recorrentes.
Que saudade desse centro do Rio, passei horas num sebo da Rua do Rosário (acho), que cheguei até a ficar com um pouco de enjôo, talvez pelo cansaço da vista. E comprando vinho numa casa de vinhos por essas ruas! Faz muito tempo...........

Luiz disse...

Linda crônica, Mariana. Não sei se você se incomoda de eu classificar seus textos, já que eles, no fundo, são inclassificáveis, pois há algo da ordem do resíduo, do resto aí, não do resto como aquilo que permanece, mas do resto como aquilo que não pode ser sistematizado, classificado, apreendido. Um abraço!