Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Fernando Pessoa

Não digas nada a quem te disse tudo —
Tudo, esse tudo que se nunca diz…
Essas palavras feitas do veludo
A que se não sabe o matiz.

Não digas nada a quem te deu a alma…
Que a alma não se dá. O confessar
É feito só para se obter a calma
De nos ouvirmos a falar.

Tudo é inútil e também mentira.
É um pião que um garoto na estrada
Deita só para ver como ele gira.
E ele gira. Não digas nada.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.380.