Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

envenenamento

Estava falando ontem de uma forte angústia na sessão de análise, quando, para tentar exprimir seu efeito sobre minha vida, ou melhor, o efeito de suas causas, disse a palavra envenenamento ― pensamento então subjacente: o que envenena Emma são as histórias (românticas) que ela leu... pensamento agora subjacente: vi faz umas duas semanas uma moça de pé no metrô, comum, uma moça de suburbano coração ― a contar da linha do metrô em que estava ― lendo em pé no metrô Madame Bovary, numa edição recente da Companhia das Letras. Lia Madame Bovary (como a outra personagem célebre lia A dama das camélias?) e, não sei se são meus preconceitos, o fato é que a moça de pé no metrô lendo Madame Bovary a caminho do trabalho compunha um quadro incomum, inesperado, a sugerir que não há mesmo sentido evidente... Não que eu esperasse uma mocinha da zona sul lendo de pé Madame Bovary no metrô. Não esperava nada, e nem é disso que se trata. Trata-se da confluência entre a cena moça-comum-lendo-madame-bovary-de-pé-no-metrô  e as angústias que levei ontem para a sessão, acerca de um certo bovarismo com que a vida vai ganhando incerto e por vezes complicado contorno, muitas vezes angustiante... Como escapar ao próprio círculo vicioso da linguagem, que não me deixa falar dessa moça sem apelar para o lugar comum? Porque é claro que eu também sou comum, e não escapo ao círculo vicioso da angústia.

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