Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

desintoxicando-me

Tentar ser o que os outros esperam de nós, o que os discursos esperam que cada vida-existência seja. Falava disso na última sessão de análise, da angústia decorrente, quando disse a palavra envenenamento. Tinha ido para a sessão bastante angustiada com minhas dores físicas ― fazendo trocadilhos do tipo: estou cheia de dores, estou cheia da dor ― e com muito medo de falar delas, das dores, porque poderiam se irritar e aumentar (não aumentaram, ao contrário, passaram a incomodar menos). Foi quando saiu a questão das expectativas, o preço que se paga por. Disse envenenamento porque lá, na sessão, e suficientemente livre para falar, eu conseguia perceber o quão nefasto pode ser tentar ser o que determinado espectro discursivo legitima como existência autêntica, plena, rica de experiências. O outro é outro, inatingível. Eu sentia muita culpa. Culpa pelas escolhas que fiz, que por obscuros caminhos ― que eu tentava supor ― teriam desembocado nas dores físicas, supondo também a pertinência de minhas suposições. Uma escolha nunca é totalmente livre, porque ela passou pelo abandono de alguma coisa, o que exige renúncia de quem escolhe, e isso a cada passo, a cada milésimo de passo, uma vida se fazendo. Os desdobramentos de tentar atender alheias expectativas, que acabam por compor com as próprias, podem terminar por estiolar a árvore que cada um nasceu para ser. 

3 comentários:

sonia disse...

Seu testo fez-me lembrar de uma frase que CL escreveu na carta à irmã, quando esteve morando na Suiça: ... Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...

Mariana disse...

Preciso, Sônia!

sonia disse...

corrigindo: "testo" para "texto".