Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

o olhar voltando...

Da árvore seca ― e também porque hoje não tive aula de natação ― eu fui para a infância, uma geografia já bem remota: a árvore, a hora do dia e o calor avivaram na memória o tempo em que levava marmita na lavoura para meu pai.                    Agora a música de fundo: Milton Nascimento ecoando as canções de Sentinela.

2 comentários:

Luiz disse...

Que imagem bonita,Mariana. A da menina que leva marmita pro pai. Aliás, essa palavra "marmita" fazia tempo que eu não ouvia ou lia, mas faz parte de minha memória afetiva, a mesma memória que me fez lembrar, lendo seu texto de outro:
Ensinamento


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)
Um abraço!

Mariana disse...

...Uma forma de cuidado, para que meu pai, além de trabalhar naquele pesado, não precisasse comer a comida fria. Às vezes íamos eu e minha irmã.

Pois é, o poema. Mas tem alguma coisa nele certeira demais com o sentimento, que é também dela, da Adélia, enquanto o meu... é tão difícil que eu mal dou conta dele, quanto mais falar. De todo modo, obrigada pelo poema. Abraço.