Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 17 de setembro de 2011

ABC

Disse à minha analista que estudei até a terceira série num lugar chamado Escola Singular de Destino. O verbo estudar merece ser sublinhado. Apesar do dado selvagem iminente de tudo, eu estudava, e, conforme já postei aqui, com a cartilha Caminho Suave. E sem cogitar sequer o que era destino, o que significava esta palavra, o alcance das sete letras numa palavra nem feia nem bonita ― as altas metafísicas não entravam nas primeiras letras ―, eu gostava daquela cartilha, da sugestão do caminho suave. Minha candura apostava nele, embora os primeiros sinais de aridez e violência se fizessem notar, até mesmo pelo abandono de tudo. Alguma coisa ali despertava o meu amor, porque o resto, apesar de incômodo, ficava nos limites da palavra incômodo, não chegava até mim. O que chegava era outra coisa, de uma opacidade que só fui perceber quando precisei começar a tentar entender as coisas, as grandes e as pequenas, o contorno que minha vida tomou, às voltas com outra cartilha, outro ABC.

Não ver no Mundo a sua face ―
É muito tempo ― até que eu ache
Onde isto ― é tudo só
Uma cartilha ― para a vida ―
Na prateleira ― inatingível ―
Fechada ― para nós ―

Mas a cartilha é o que me basta ―
Livro nenhum ― me fará falta ―
Por mais raro ― o saber ―
Pode alguém ser ― o mais instruído ―
Tomar nas mãos ― o Paraíso ―
Eu só quero ― o ABC ―


Not in this World to see his face ―
Sounds long ― until I read the place
Where this ― is said to me
But just the Primer ― to a life ―
Unopened ― rare ― Upon the Shelf ―
Clasped yet ― to Him ― and Me ―

And yet ― My Primer suits me so
I would not choose ― a Book to know
Than that ― be sweeter wise ―
Might some one else ― so learned ― be ―
And leave me ― just my A-B-C ―
Himself ― could have the Skies ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.64-65.

2 comentários:

Menina no Sotão disse...

Eu já ouvi falar tanto dessa cartilha que não resisti e fui atrás da tal cartilha. Primeiro achei a imagem no google e achei diversas figuras curiosas, com caminhos, sem caminhos, com crianças de mãos dados e seus olhares para trás. E por fim achei um exemplar em um sebo. Achei interessante a forma de apresentação de palavras e letras.
O que me veio a mente, não me lembro como descobri as palavras, as letras. Lembro-me de ter vontade de saber o significado de todas aquelas palavras com suas letras misturadas. Mas não tenho recordações de como tudo aquilo se transformou em delírio, destino...
Lembro sim de uma palavra que chamou minha atenção "dissapore". Achei linda e a explicação não me fez mudar de idéia. "Questa vitta é só dissapore". Minha mãe dizia que era poético, mas não era verdade. rs
Enfim, desde pequena eu já tinha mania de sons. Me agradava, não importava nada mais...
bacio

Mariana disse...

Para mim também tudo é muito misturado, não havia técnica de alfabetização, havia apenas o ABCDestino... Mas eu já sabia ler antes de ir para a escola, minha mãe foi minha primeira professora.

Não foi uma palavra que primeiro me chamou a atenção, foi uma frase, a coisa mais antiga que me recordo ter lido, uma chamada de jornal, "Todo mundo foi à festa". Aparentemente o contrário de sua frase, "Questa vitta é só dissapore".

Abraço.