Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 17 de setembro de 2011

minimalismo

Releio a parte final do meu texto de abertura. Este blog não pretende nada. Um camarada me escreveu há cerca de dois meses dizendo coisas supimpas do meu texto de abertura, Lacan e tal. Lisonjeada. Mas é o seguinte: este meu mar costuma ser bem caprichoso ― o que de fato busco aqui obedece a demandas muito próprias. Tenho vontade de escrever, simplesmente, pelo prazer de escrever, de alinhar palavras e frases umas após as outras e ver o que sai. E não me esqueço de uma entrevista lida há bastante tempo com Raduan Nassar, então com dois livros publicados, que disse com todas as letras que tinha abandonado as letras para criar galinhas, além de outras temeridades. Poucas vezes vi tanta força no discernimento de um destino. Aquela entrevista me ajudou a saber mais de mim.

9 comentários:

Marcantonio disse...

Opa! Por isso que digo que admiro os desertores; os que invertem serenamente certa hierarquia de valores; os que não levam muito em consideração a parte de si mesmos que os outros mais veneram; os que não se levam demasiadamente a sério e aqueles que trocam mundos e fundos por um fundo autêntico de quintal.

Pelo que vejo, então, esse discernimento de um destino pode operar mais por uma renúncia do que por uma conquista, ou seria por uma conquista como renúncia aparente?

É,em todo caso, por que fazer literatura seria mais relevante do que criar galinhas?

Mas o mais incrível mesmo é pensar que não deve haver o Raduan I e o Raduan II, como se costuma dizer "didaticamnte" (embora ainda de modo prepotente) dos autores ou filósofos que mudam "bruscamente" de itinerário. Incrível mesmo é pensar num único e coerente Raduan.

Abraço.

Mariana disse...

Prezado Marco, me apetece falar dessa entrevista, daquela época. Foi em 1992, no Caderno de Ideias do JB. Lia aquele caderno, os comentários, as entrevistas - havia certo tônus muscular, ainda. Depois foi se convertendo em balcão de livraria e editora, como aliás os demais, depois o próprio jornal faliu. Me recordo bem porque naquele ano o Bosi foi homenageado pelo Suplemento.

Pois o Raduan assumia corajosamente suas posições, fustigava o "clero literário", dizia não gostar de Oswald de Andrade e quando perguntado sobre o ensino de literatura e teoria, falou que os professores, em vez de ficarem impingindo carradas de teoria aos alunos, deveriam ensinar-lhes a pensar com a própria cabeça, supondo que estes mesmos professores fossem capazes de fazê-lo...

Eu perdi essa entrevista, infelizmente, mas posso encontrar na BN, agora me ocorre. Ele sequer queria cogitar da adaptação de seus dois livros para o cinema (já estava sendo sondado então), depois acabou cedendo, como se viu.

Mas me pareceu um caso completo de desertor. Não se levar demasiado a sério, correr por fora, inverter os valores, não entrar no jogo do aplauso. Essa entrevista me encorajou a ir atrás de meu próprio fundo de quintal.

Essa palavra, renúncia, ela é muito forte, e na época eu precisei fazer escolhas bastante temerárias, mas que me deram o norte de que precisava. Foi quando a literatura entrou na minha vida, mas eu não sabia que isso estava acontecendo: poderia ter ido para a história, para a filosofia, para um convento... Então renúncias são também conquistas, mas o mais incrível é renunciar ao visível, ao aparente e não conseguir discernir bem o que se está conquistando, se está se conquistando alguma coisa: isso demorar para aparecer. Parecer estar abrindo mão de alguma coisa em troca de nada. Mas essa mesma operação, se levada nestes termos, de fato não vai levar a nada, pois o gesto da renúncia precisa falar por si. E as pessoas podem surpreender, assim como o mundo.

Os que correm por fora, os que se colocam deliberadamente à margem, aqueles cuja voz se faz ouvir mais pelo arranhado da voz que pela bela cadência do discurso.

Sim, há uma coerência de voz e fundo no Raduan, e em outros fortes (ou fortalezas). Basta ler o micro conto que segue. Foi a força que discerni no seu gesto que me fez duvidar na base de muita coisa.

Abraço.

Mariana disse...

AÍ PELAS TRÊS DA TARDE
Raduan Nassar

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Moriconi, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.310-311.

Menina no Sotão disse...

Bom dia Mariana, eu acho que a vida é feita de escolhas. Há pouco falava disso em um escrito meu que ainda não saiu das sombras e talvez nem saia. Eu escolhi psicologia. Fui adiante e descobri que mesmo sendo uma "excelente" ouvinte, aquilo me sufocava.
Resolvi começar tudo de novo e ouvi dúzias de desaforos por isso. E olha que eu só tinha vinte e poucos anos, um pouco menos que hoje. Virei a esquina, dei de ombros e fui em frente. A nova escolha já se sabia não seria fácil e seria preciso anos de dedicação, descobertas de rimtos e tantas outras coisas.
Eu não lembro onde, mas li essa frase dita por Raduan e outras coisas mais e lembro de ter pensado comigo mesmo "eu resolvi criar galinhas". E ri alto no meio do nada com alguns humanos como platéia.
Mas o que eu vejo hoje é um cenário literário muito chato, vago. Todo mundo diz gostar de todo mundo e no fundo não gosta de ninguém e nem ao menos se dá ao trabalho de ler. Viver com livros em baixo do braço me lembram pastores de igreja que dizem uma coisa e fazem outras.
Ter vontade e fazer suas vontades é um grande desafio.

“Nós buscamos outras realidades porque não sabemos
como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos
pelo desejo de saber como é o nosso interior.”

Enfim, a vida é feita de caminhos, mas são os nosso pés que fazem as escolhas. kkkkkkkkkkkkk

bacio

Ps. Soube há pouco (estava alheia a assuntos reais) que a greve dos correios está atrapalhando as entregas. Mas me asseguraram que o livro (com atraso) foi enviado a você... Espero que ele não sofre estravius...

Mariana disse...

Caríssima Lunna, o livro chegou sim, mas foi num dia muito tumultuado, e eu deixei registrado no comentário-resposta do post das panelas meu agradecimento, na suposição de que você fosse ler.

http://thmari.blogspot.com/2011/09/livros-panelas-vida.html

O mais correto teria sido passar no seu blog e agradecer, ou mesmo escrever um e-mail, mas estava exausta demais, a tentação pelas galinhas (rs) era grande.

O capítulo escolhas anda a par com o capítulo destino. Eu sempre achei que estava fazendo escolhas, fiz muitas, em várias etapas da vida. Nesta que situo, eu tinha acabado de concluir uma graduação em Biologia, mas não consegui seguir carreira (certamente estaria mais sossegada financeiramente, mas eu não consegui divisar caminhos). A literatura foi o modo como consegui conciliar demandas bastante contraditórias. Sobrevivi.

Ah, sim, o que você diz do insosso atual da literatura, esse cenário de FLIP e tal, não me empolga. Houve uma polêmica envolvendo a Beatriz Resende e o Alcir Pécora sobre os contemporâneos, mas não acompanhei. Talvez volte a ele porque a questão me interessa.

http://blogdoims.uol.com.br/ims/ficcao-compadrio-e-as-tias-beatriz-rezende-e-alcir-pecora/

Da dita geração 90 eu conheço o Luiz Ruffato e o Marcelino Freire. Prefiro o primeiro, acho que ele, com o romance "eles eram muitos cavalos" (assim mesmo, tudo em minúscula), certamente fez uma ruptura: há ali uma radicalidade. Mas não segui acompanhando sua obra, por falta de tempo mesmo. Mas ele é uma figura bem interessante. Veja, por exemplo, essa entrevista, em que ele fala de escolhas, do feijão e do sonho:

http://www.youtube.com/watch?v=VzY_GsNT_YM

Abraço.

Isadora disse...

eu ainda acho que escrever não é questão de escolha, mas de necessidade. é natural para quem tem talento, e quando deixa de ser, perde totalmente o sentido.

Mariana disse...

Isadora, acho todas essas palavras (escolha, talento, natural) complexas, pois recobrem um leque amplo de possibilidades e sentidos, e variam de pessoa para pessoa. Eu não me sinto com muita competência para discutir essas coisas no seu cerne filosófico, digamos assim. Reconheço as ficções, apenas. Já me peguei devaneando se o que chamo de azul é o mesmo que uma outra pessoa está vendo como azul, embora pareça não haver muita discordância num campo tão concreto como este. Agora, quando se caminha em direção a outras noções, menos palpáveis... Isso faz lembrar o quanto o campo da linguagem é movente, e é em suas fendas, fissuras e desníveis que a escrita se instaura.

Marcantonio disse...

"Parecer estar abrindo mão de alguma coisa em troca de nada. Mas essa mesma operação, se levada nestes termos, de fato não vai levar a nada, pois o gesto da renúncia precisa falar por si. E as pessoas podem surpreender, assim como o mundo."

Essa parte do seu comentário me parece o grande ponto. E eu me pergunto com frequência se o meu desprezo por certa oficialidade, por todo sistema estabelecido, não é alimentado por algum ressentimento, ou pior, por um medo auto-sabotador. Mas não há jeito de saber com certeza. Fato é que há um cheiro de terra vindo do quintal dos fundos que me agrada muito. Dou-me um tempo para esperar que esse quintal surja como uma revelação inequívoca antes adiada, insurgida não sei por que forças que não se confundam com uma escolha que possa ser não mais do que uma ilusão ou racionalização, como parecem ser quase todas as supostas escolhas. Ou seja, o momento como um agora-ou-nunca para atravessar a ponte, pois em seguida ela vai ser derrubada.
Por outro lado, por que não pensar na existência dessas angústias e apreensões como já sendo elas mesmas uma espécie de vacina que nos imuniza contra a esclerose das artificiais e conformistas gratificações.

Penso que o fundo do quintal tem raízes com profundidades insuspeitas. Mas as pessoas, em geral, herdam com a casa um jardim da frente, visível aos passantes, e se dão como obrigação compulsiva, a poda, o cuidado, o adubamento, para que não pareçam negligentes com essa herança e, ao mesmo tempo, secretamente ambicionando que com o tempo as tomem como as criadoras daquele jardim.

Esse Aí Pelas Três da Tarde é ótimo mesmo. Creio que devo ter lido aquela entrevista por que acompanhava religiosamente o Caderno de Ideias, naquela época Ensaios e Livros. E ainda guardo uma boa parte deles. Bons tempos...

Abraço.

Mariana disse...

Prezado Marco, um dos pontos da minha identificação com o Nassar, esse voltar-se para o quintal, é a questão da minha origem rural. Eu nunca me livrei do mato em que nasci, embora longamente tivesse me iludido em sentido contrário. No mestrado, me embrenhei nele através de "São Marcos" (são marcos). No doutorado, fui atrás de um Sérgio Buarque crítico do patriarcado com passagem por Cachoeiro e que me prometia raízes, as do Brasil e as minhas próprias, já misturadas às da literatura.

Tudo o que você diz a partir de "Mas não há jeito de saber com certeza...", mais uma vez, merecia figurar num post, mais do que num post-scriptum.

Eu sinto que se eu não colocar essas contradições no papel, não publicar um livro, dois, não sei (minha dissertação, minha tese) vou estourar, trair as raízes. Eu preciso falar de "São Marcos", preciso falar das raízes, as raízes rurais do Brasil em que nasci. Se não fizer isso eu estouro. No blog, eu vou ensaiando. A coisa aqui está voltada para o mar, mas o Brasil é litoral e sertão.

Tem um conto do Rosa que fala assim: "Tudo era esquecimento, menos o coração". Esse cheiro de terra molhada, estrumada, cheiro da plantação de café, nunca me largou. Não sei se consigo voltar ao quintal de minha infância sem visitar de novo a aspereza de tudo, mas também a doçura, o encanto.

Tudo isso que você diz vai no ponto nevrálgico, em que a memória, uma antiga memória, se agita: "uma revelação inequívoca antes adiada, insurgida não sei por que forças que não se confundam com uma escolha que possa ser não mais do que uma ilusão ou racionalização, como parecem ser quase todas as supostas escolhas."

Quando falei do nada, de uma renúncia que deixa uma grande clareira no cipoal das possibilidades, é que eu já tive que ficar com ele, com esse nada, e sobrevivi, nada de terrível aconteceu, muito pelo contrário. Mas aqui, definitivamente, o imponderável dá o tom, assim como a angústia que você refere.

Então esse trecho do Raduan, quando ele relata um encontro com o Ariano Suassuna, rememorando que tinha inventado uma cabra e o próprio avô com as palavras: "As palavras valem também pra isso, dar alguma existência aos nossos delírios."

Uma casa com quintal. Acho que acabei falando outra coisa, distante do que você pontuou. Mas é que de repente fui para bem longe.

Realmente, bons tempos.

Abraço.