Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

escrever

Escrevo depois da chuva. Rasgo linhas como a chuva ― água chamada à terra pelo ciclo atmosférico ― rasga o espaço precipitando-se no chão. As palavras precipitam-se no papel, no seu papel de palavras. Qual é o papel das palavras? O papel branco ― solo ― recebe palavras cujo intento seria, aprende-se muito cedo, comunicar. Um qualquer papel recebe palavras e isso às vezes nada comunica em sua exterioridade, assim como uma chuva pode não despertar nada em quem a mira ― o que talvez seja difícil. Uma chuva pode chegar de muitas maneiras, com alarde ou silenciosamente impressentida ― às vezes, de tão mansa, percebe-se apenas que choveu, ou então que chove uma chuva tão fininha, leve, quase água a flutuar antes de tocar o inevitável solo da gravidade. Mas é como se a gravidade não existisse, e a água estivesse solenemente caindo devagar, como um hino à natureza, desejando, em seu lento tombar, que alguém a note (anote), chuva, água, espanto de que as coisas ainda estejam vivas, beirando o sublime, quando tudo à volta parece conspirar para a morte. Uma chuva assim num domingo à tarde é uma mensagem do céu. 

2 comentários:

Menina no Sotão disse...

Sou obrigada a sentir inveja desse seu post. Ando carente de chuvas, da paisagem negra, dos céus a "reclamar" e dos humanos a fugir das ruas. Aqui em São Paulo, a simples idéia de chuva deixa a cidade inserida numa espécie de caos natural.
Mas as palavras, quando chovem, inundam-me, seja por dentro ou por fora, seja junto aos olhos ou na ponta dos dedos. É como se eu fosse inundada... rs

bacio

Mariana disse...

Cara Lunna, obrigada. Esse post saiu mesmo de uma chuva de domingo à tarde, tão maravilhosa como aconteceu, porque foi, como um presente inesperado, o que a chuva costuma fazer por mim, uma paz muito própria.

Abraço.