Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Murilo Mendes

O TEMPO

O tempo cria um tempo
Logo abandonado pelo tempo,
Arma e desarma o braço do destino.
A metade de um tempo espera num mar sem praias,
Coalhado de cadáveres de momentos ainda azuis.
O que flui do tempo entorna os pássaros,
Atravessa a pedra e levanta os monumentos
Onde se desenrola ― o tempo espreitando ― a ópera do espaço.
Os botões da farda do tempo
São contados ― não pelo tempo.
O relojoeiro cercado de relógios
Pergunta que horas são.

O tempo passeia a música e restaura-se.
O tempo desafia a pátina dos espíritos,
Transfere o heroísmo dos heróis obsoletos,
Divulga o que nós não fomos em tempo algum.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.433-434.

3 comentários:

Menina no Sotão disse...

E pensar que eu conhecia pouco ou nada acerca de Murilo Mendes. Sinal de que ainda há espaço para muito mais em mim. Isso é muito bom.

bacio

Mariana disse...

Uma poesia sofisticada, por vezes hermética, agenciando símbolos que exigem um leitor disponível.

Eu me lembro que, já no meu primeiro contato com a poesia de Murilo Mendes, senti qualquer coisa me desafiando, e cheguei a tentar transformar meu assombro num artigo apresentado num evento. Era meu grande orgulho, meu trabalho sobre Murilo Mendes, até que um professor cheio das letras leu e disse que o que eu estava vendo na poesia de Murilo Mendes também se encontrava em Drummond e Bandeira, e que o Hugo Friedrich já tinha discutido aqueles traços no seu "Estrutura de lírica moderna". Uma ducha de água fria. Adiei por tempo indeterminado meu projeto de falar do Murilo Mendes.

Abraço.

Menina no Sotão disse...

Caríssima Mariana, poetas, homens e suas poesias. Claro que há coisas em comum, mas não acredito que seja tudo igual. Eu vejo linhas inteiras e tudo se agiganta a minha volta, de tal maneira que preciso me deixar, me esquecer em cima do verso. Ou então, iria ler apenas Campos ou Caieiro e ninguém mais.
Fiquei curiosa para ler-te acerca de Murilo Mendes. Pense num dia de verão, daqueles bem quentes e use a água fria para tornar o momento mais agradável...

bacio