Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 11 de setembro de 2011

"Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros"

"Sabe por que eu nunca virei um escritor?"
"Não", respondi, surpreso de saber que ele sequer já tinha aventado a hipótese.
"Porque eu descobri quase imediatamente que não tinha nada a dizer. Eu nunca vivi de verdade, é esse todo o problema. Se você não arrisca nada, não tem como ganhar nada. Como é mesmo o ditado oriental? 'Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros.' Explica tudo. Esses russos loucos que você me dá para ler, todos tiveram experiência da vida, mesmo que nunca tenham se afastado do lugar onde nasceram. Para as coisas acontecerem, é preciso haver um clima propício. E quando falta esse clima você cria. Quer dizer, se tem a genialidade. Eu jamais consegui criar nada. Só sei jogar o jogo, e jogar de acordo com as regras. A resposta para isso, se você não sabe, é a morte."

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.35.

2 comentários:

Luiz disse...

Muito forte esse trecho hein? Queria um comentário seu, deslocando os lugares aqui, já que eu que devia comentar algo. Beijo!

Mariana disse...

... mas eu não sei, tanta coisa, essa coisa da vida, do medo: novamente a pergunta: o que é viver? É como se a pessoa tangenciasse alguma coisa potencialmente perigosa e destrutiva, e conseguisse sair viva. Ter algo a dizer: é isso que se busca nessas pessoas que a gente lê. Decantando, o que fica, o que se imprime? Muitos eu esqueci, por mais interessantes e maravilhosos que tenha achado então, quando os li.

Eu acho que ele está dizendo isso: correr o risco, só assim será possível criar. O que, fora da arte, da criação, diz efetivamente alguma coisa?

Descubro agora que gostava de frequentar concertos de música erudita ou instrumental no ambiente universitário. Muitas vezes estar ali ouvindo uma música me expurgou de sentimentos negativos. Deve ser mais ou menos por aí. Beijo!