Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 4 de setembro de 2011

Anselm Kiefer, St. Eustace, 1974

4 comentários:

Marcantonio disse...

Ora vejam, uma paleta no lugar de um crucifixo, que simbólica substituição para uma epifania sobre a arte: ela ocupa o lugar da religião?

A gravura Santo Eustáquio, de Dürer sempre me fascinou (como, de resto, quase tudo dele)e cheguei a fazer alguns trabalhos estranhos utilizando alguns elementos dela. E me desfiz deles, só restando um: http://cadernosdearte.wordpress.com/arte-e-filosofia/ (insolúveis e patéticos caminhos da minha tropical germanofilia artística).

Esse Kiefer é sempre surpreendente.

Mariana disse...

Mas a arte é isso, surpreender, capturar o espectador em novas possibilidades, trazer-lhe o novo.

Houve aí uma fusão de símbolos, de mitos, no centro brilhando a paleta: que achado! É uma profissão de fé na arte, é tributar-lhe um valor inestimável - que conversão seria esta?

Prezado Marco, vou precisar de tempo para conferir o link a que você me remete... é imenso o texto... Vou salvar nos favoritos, para ler com calma, cuidado e atenção. Obrigada. No mais, meu conhecimento de arte é pela via da literatura.

Marcantonio disse...

Mariana, na verdade a minha intenção era remeter à gravura Santo Eustáquio e ao trabalho que fiz sobre ela; estão lá no meio daqueles textos. É que naquele blog usei páginas e não postagens separadas por data. Na verdade, considero a maior parte dos textos descuidados.

Sim, um achado a paleta. Realmente surpreendente. E em um trabalho tão sintético...

Um abraço.

Mariana disse...

Oi, Marco, justamente porque quero ler de maneira mais compassada é que resolvi salvar nos favoritos. Tudo que estudei de arte foi pela vida da literatura... tenho poucos livros dedicados ao tema em casa, quase sempre focalizando nas vanguardas. Um livro essencial que li foi "Os cinco paradoxos da modernidade", do Antoine Compagnon.

Então, por exemplo, foi o blog que foi me trazendo outras aragens: o Anselm Kiefer eu descobri por puro acaso, já não sei como, foi fascínio imediato, pela envergadura que então distingui.

Acho que uma das primeiras coisas que postei dele foi aquela tela famosa, "Everyone Stands Under His Own Dome of Heaven", que vai do macro ao micro fascismo, das grandes ideologias às opiniões de todo dia: everyone...

http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/1995.14.4

Fascinante, esta obra, simplesmente.

E outras coisas também foi a poesia que me deu, como os poemas intersemióticos de William Carlos Williams, que me levaram às telas, aos criadores. E agora seu comentário, me remetendo à tela do Dürer.

Quanto à germanofilia, eu também modestamente me sinto uma, pelo modo como o Romantismo alemão chegou até mim, depois o Sérgio Buarque, cuja complexa formação deixava entrever um "pensamento" alemão. Raízes do Brasil é exemplar (Dilthey, Nietzsche, Weber). No doutorado eu compreendi que não ia entender o Sérgio Buarque fácil, que não era tarefa para quatro anos, mas talvez um projeto de vida. Ao seu modo, ele também é fascinante.

Abraço.