Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 21 de abril de 2012

malabarismo

A propósito de uma crônica de Luis Fernando Verissimo cujo desfecho criava certo suspense, uma aluna, após muitas discussões entre os alunos, disse que o autor queria exatamente aquilo, provocar o debate, a imprecisão dos limites entre o que é realidade e o que é imaginação. E, como eram as duas últimas aulas do dia e eu já estava no piloto automático, enveredei por um caminho que me levou a dizer mais ou menos o seguinte, enquanto olhava para a concretude e a certeza das carteiras (certeiras) à minha frente: que nós nos agarramos à concretude do mundo para viver. Num ônibus, em pé, não é preciso se segurar para não cair?, perguntei a um aluno, enquanto encenava o gestual com as mãos. Ele me olhou concreto. Aí disse o que não havia até então pensando: que nós nos seguramos nas palavras para não cair, somos malabaristas, equilibristas. E há alguns excelentes, como Luis Fernando Verissimo.

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