Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 15 de abril de 2012

Paulo Leminski

O ASSASSINO ERA O ESCRIBA

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983, p.144. Obs.: em "Tentou ir para is EUA", uma piscadela para Drummond. Livro para leitura online:

6 comentários:

Professor Maurício Fernandes da Cunha disse...

“Acordei bemol,
Tudo estava sustenido.
Sol fazia
Só não fazia sentido”

(Leminski)

Uma pena Leminski ter morrido tão cedo. Tinha uma ironia e uma espirituosidade marcantes.
Um dos melhores de sua geração, senão o melhor. Curioso, ele e Raul terem nascido quase no mesmo ano (44-45) e morrido no mesmo ano (89), vítimas dos próprios excessos, de uma combinação drogas-álcool que por fim não fazia mais sentido. Para ambos, a obra fala por si.

Grande abraço, Mariana.

ps. Sempre por aqui. Esse Mar é parada semanal obrigatória.

Mariana disse...

Prezado Maurício, primeiramente muito obrigada pela presença assídua, considerando que ando um tanto intransitiva, restrita a meu casulo-ilha. Mas jamais intransigente. Não desisto, insisto, resisto, persisto, na esperança de que uma hora o vento possa soprar em outras direções. Uma amiga me consola dizendo que às vezes nossa forma de participar é não participando. Falando com Raul, a metamorfose ambulante do momento é a retração.

Quanto ao Leminski, é um poeta que gostaria de ter lido/estudado mais. O afã do currículo escolar em cobrir toda a poesia produzida em solo brasileiro acaba prejudicando a literatura contemporânea. O valor de Gregório de Matos e dos árcades, com as exceções de praxe, é mais histórico que estético. Se fôssemos privilegiar outros elementos que não a história literária, a chance de nossos alunos passarem a gostar de poesia seria muito maior.

Outro abraço.

Mariana disse...

P.S. Li uma vez um depoimento dele prevendo uma morte similar à de Fernando Pessoa, por cirrose hepática.

Professor Maurício Fernandes da Cunha disse...

Cara Mariana,

Morte premonitória, não sabia disso. Concordo plenamente quanto à observação sobre o currículo escolar. Em uma das escolas em que dou aula é sistema Etapa, totalmente voltado ao vestibular. Acabo sempre fazendo pequenas subversões, ainda assim poucas. Como não apresentar tantos bons autores contemporâneos aos alunos? Fora os clássicos da literatura universal que não fazem parte do currículo. Pequenos malabarismos são necessários para que pelo menos eles tenham contato com o que está fora do currículo histórico-brasileiro-português. E vamos lutando contra os moinhos.

Abraço.

Anônimo disse...

O [já] saudoso Millôr F. escreveu um texto parecido, não sei se conhece? Assim que eu voltar pra casa - estou viajando há algumas semanas - eu procuro e te apresento (tá num livrinho com coletânea de textos publicados no Pasquim).

besos,
j

Mariana disse...

Ok, obrigada, fico aguardando.

Sim, Maurício, contra os moinhos, sempre.