Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Cacaso ("sem deixar resíduo de meu ser, peixe")

MARINHA IRREVERSÍVEL

Agora te persigo, peixe morto.
Não como esfinge oblíqua
mas como prolongamento de meu corpo.

As palavras não valem,
o tempo não conta.
Debruço-me sobre os continentes, o mais árido,
e cavo a medida exata de minha angústia.
Sobre as retinas cai a longa noite.
O sono é numeroso e horizontal.
Como o sono permanece, tento romper-te
em litúrgicas escamas, como se buscasse
a só reintegração na superfície.

A cidade pulverizada te reflete,
a ti que fazes vigília em meus olhos.
Não há saída, as portas se recusam.
Mas a vida lateja e propõe
outro costume.
Sem mais escolha e sem
deixar resíduo de meu ser,
                             peixe,
mergulho para todo o sempre
em teu condado submerso.

CACASO. Lero-lero. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.203.

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