Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

pequeno milagre

Perceber os olhos levemente molhados, depois de expressivo tempo secos, diante da cena final de um drama americano já visto, casualmente encontrado no zapeamento dos canais ― e por que, afinal, deter-se ante um título que fala de vidas (e da vida) no limite? Mas foi assim, e o pequeno milagre do começo da água. Haveria talvez algo mais a dizer aqui, mas essa água não quer ser corrompida.

2 comentários:

Marcantonio disse...

Água de uma rápida chuva ou que aflora de um lençol subterrâneo? Curiosamente, hoje vi uns olhos se encherem de lágrimas por um nada (ao menos assim eu o consideraria)e a resposta: não é a coisa, sou eu que desde de cedo venho me comovendo, sensível a qualquer mudança de tom. Isso dá o que pensar. Mas o pensamento pode mesmo conspurcar a água.

Mariana disse...

Como é bom conversar com poetas! Eles percebem o que, às vezes, mal se suspeita ou entrevê...

Água que aflora de um rio subterrâneo, mas timidamente, porque os canais entre o rio e a superfície passaram um tempo obliterados (que palavra tão pouco poética, ou pelo menos destoante da cena), olvidados, então, nas próprias artimanhas do que é o esquecimento. Alguma coisa então voltando, de leve.