Man Man, Banana Ghost from Jeremy Mayhew on Vimeo.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 26 de novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Dora Ferreira da Silva
QUE AS COISAS...
Que as coisas em seu porte
são efêmeras,
nós sabemos.
Retêm os jardins apenas as fragrâncias
de curto voo.
À luz da lua
escrutam amantes
a luz que não se vê.
No alaúde do peito
tosse e amor se revezam.
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.262. Amor tussisque non celantur: provérbio latino.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
brumas da linguagem
As imagens vividas em sonho esta noite me agrediram de maneira única. No entanto, agora que me detenho para escrever, um elo antigo e perdido nas reminiscências da infância, aquelas que uma pessoa não sabe se viu em presença ou em sonho, presentifica-se como parte inalienável do sonho desta noite. Ao me colocar diante do blog vieram-me as imagens do sonho. Ao tentar escrever sobre ele veio-me inesperado, mas tão cheio de reverberações, um elo. Há descontinuidades. Se as imagens desta noite me agrediram, talvez não tenham passado de simulacro para eu enxergar a agressão daquela outra, perdida nas brumas da infância, quando eu era bastante indefesa ― e ontem, agora me ocorre, falei em aula da criança como um ser à mercê dos adultos (pensava no imaginário, na inserção no universo da linguagem e o mais que vem a reboque), adultos que podem desenhá-la com bico de pena ou, ao contrário, ocupados demais com a sobrevivência, serem pouco dados a sutilezas. O que chamo de sutilezas? Não sei, não tenho escala segura, precisa, para aferir o que é sutil numa terra que me foi desde sempre tão selvagem, e da qual tentei em vão me proteger. Eu nunca soube se uma cena, incerta, a que assisti na remota infância foi de fato real ou sonho, nunca consegui saber, e ela sempre viveu mais ou menos interditada em mim. Como saber de coisas tão longínquas? Como saber que a linguagem não está nos traindo, ao delimitar as coisas vividas com as palavras e a sintaxe? Pode ter sido tão brutalmente real, porque estava nas brumas da linguagem, que eu preferi creditar tudo ao sonho, sonho que esta noite veio avivar coisas adormecidas. Quem sonha está dormindo, mas traz latente em si tudo o que viveu, em realidade ou sonho. A vida penetra no sonho com uma força descomunal, e agora bastaria me ater ao sonho desta noite.
ausência
"Mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”, disse conhecida personagem. Invertendo o paradigma romântico dessa afirmação/negação, há uma ausência que se nota pelo avesso, um eu que se esvazia, e isso não precisa ser uma lacuna, muito menos tudo. Essa lacuna pode bem ser nada, pode ser suprimida, esvaziada de sentido. Como sair do espaço do eu lacuna? Escrevendo... Saudade imensa de escrever neste espaço, mas há uma ausência qualquer, uma coisa nova barrando o encontro com as palavras, e ainda não sei onde isso vai dar.
domingo, 20 de novembro de 2011
Óssip Mandelstam: "A quietude original / Como uma nota de cristal"
SILENTIUM
Ainda não é nascida,
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.
O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.
Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!
Volve à poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com a vida coabite!
CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006. p.114.
sábado, 19 de novembro de 2011
provérbio
Nenhum ouro vale o desdém ou a indiferença. Quem desdenha não quer comprar ― quer esquecer, daria seu ouro em troca do esquecimento. Um dia, em súbito paradoxo, dá-se conta do esquecimento, de que o tempo agiu, e que o nada é um ótimo patamar para aferir a importância das coisas.
e. e. cummings
da mentira do não
a verdade do sim
(só ela mesma e quem
é ilimitadamente)
para que um tolo entenda
(como triste eu)que nem
mil meandros da mente
valem uma violeta
out of the lie of no
rises a truth of yes
(only herself and who
illimitably is)
making fools understand
(like wintry me)that not
all matterings of mind
equal one violet
e. e. cummings. Poem(a)s. 2.ed. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011.
acender um fogo
“Então foi afundando num sono, que lhe pareceu ser o mais confortável e satisfatório que já conhecera na vida. O cão encarava-o, numa imobilidade de espera. O dia curto aproximava-se do fim, num longo, vagaroso crepúsculo. Não havia sinais de um fogo em preparo ― além disso, em sua experiência de cão nunca ele vira um homem jazer assim na neve e não fazer um fogo. À medida que o crepúsculo avançava, a ânsia do calor dominou-o ― ergueu alto no ar uma depois a outra pata dianteira e uivou brandamente; em seguida baixou as orelhas em antecipação aos ralhos do homem. Porém o homem permaneceu silencioso. Mais tarde o cão uivou alto; mais tarde ainda chegou-se de rastos até junto do homem e sentiu o cheiro da morte ― que o fez eriçar o pelo e recuar. Atardou-se ainda algum tempo, uivando sob as estrelas, que saltavam e dançavam e rebrilhavam no céu frio. Depois se voltou e trotou pela trilha afora em direção ao acampamento que conhecia, onde havia outros provedores de alimento ― e provedores de fogo.”
JACK London. Acender um fogo. Contos norte-americanos. Organização Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p.256. Tradução deste conto: Ruth Leão.
escrita
Necessidade imensa de escrever, mas não estou conseguindo. Quem sabe alguma forma de bloqueio ― ou vazio. O que há no nada, no silêncio, no vazio senão a ausência diria absoluta do oposto que por contraste nomeiam? O silêncio é uma terra encantada, um éden primordial anterior ao primeiro diálogo entre Deus e o homem, Deus contemplando sua criação.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
companhia
Havia um exame a fazer, em centro médico localizado num grande shopping da cidade, com uma reserva de tempo. Primeiro passei na Fnac, mas estava muito cheia; dirigi-me então para a Travessa, onde, quando esses parênteses de tempo acontecem, pego dois ou três livros e procuro um sofá para ler um pouco. Os sofás confortáveis estavam todos ocupados, mas logo um desocupou. A ascensão do romance, de Ian Watt, não despertou meu interesse, pelo menos naquele contexto: não queria teoria. Fui percorrendo as páginas dos sonhos de Kafka (mas a tradução não era assinada pelo Modesto Carone), e fiquei abismada com a franqueza com que ele os expunha, alguns bastante bizarros, para as suas namoradas. Acima de tudo, com seu envolvimento com o mundo onírico. Deixei os pesadelos kafkianos de lado e comecei a ler O duplo, de Dostoievski, mas a confusão mental do protagonista crescia numa proporção geométrica com o avançar das páginas, juntando-se à minha, e mesmo já estava na hora do exame. Quando vou a livrarias e bibliotecas sinto um apaziguamento incomum. Deve ser a companhia.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Uma rosa para Emily (William Faulkner)
O conto “Uma rosa para Emily”, de William Faulkner, integra a coletânea em tela. Uma obra-prima. De minha parte, pensei em conhecida Emily, em secretas homenagens. Por que não? "O poço e o pêndulo", de Edgar Allan Poe, também comparece, e encontrei no volume um conto simplesmente único, magistral, "O ousado rapaz do trapézio suspenso", de William Saroyan, título que alude a conhecida canção popular norte-americana. A tradução de João Cabral de Melo Neto é quase musical: "Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: 'Com a maior facilidade voa no espaço imenso, o ousado rapaz do trapézio suspenso', e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, murmurou, que fome de tua música.' Esplêndida é a poesia desta tradução, é intuir que há uma verdade banal da realidade.
trapos da memória
A última notícia que recebo é que os proprietários não vão mais vender o imóvel ― antes havia chegado aos meus ouvidos que iriam vendê-lo no prazo de dois anos ―, de forma que, salvo um aumento exorbitante do aluguel, poderei ficar aqui por prazo indeterminado, ou pelo menos até que nova configuração se desenhe. Ao assistir o curta de animação que acabei de postar, vieram-me de súbito as imagens desta noite, mais precisamente a presença do inusitado animal me fazendo lembrar das baratas ― tenho-lhes verdadeiro horror, são o único animal que de fato detesto. E então é assim: estou indo, acompanhada de algumas pessoas da minha família, dentre elas meu pai, olhar o novo imóvel em que vou morar, e que é esta casa, sendo ela e outra ao mesmo tempo, pois está tudo diferente, diria mesmo o oposto. A casa é voltada para dentro e para baixo, com janelas precárias para a rua, e está caótica, cheia de móveis e coisas estragadas e abandonadas, que não me servirão. Não há portaria, o que me faz pensar nas dificuldades com o correio, os livros e o mais que compro pela internet. Há mato nas imediações, bem próximo, e penso então na possibilidade de ter de conviver com baratas. Foi este o gancho entre o curta e o sonho: lá o animal alimentando a fantasia, aqui o medo e a reticência. Meu pai está aparentemente no comando da situação, e apesar de todos os poréns, minha inclinação é pela aceitação da casa, encontrando, por exemplo, o quarto em que vou dormir. Tudo é desordem, móveis velhos caindo aos pedaços em estado de abandono, e eu aceitando esse estado de coisas. Talvez haja muitas casas nesta casa limpa e organizada em que estou vivendo, a maior de todas a casa de minha infância, onde convivi com baratas e atualmente vive meu pai. Isso explica os panos velhos da memória.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
a paz da palavra no papel
Um blog precisa atender antes de tudo a quem nele escreve, e não deixa de ser verdade que ando me contendo, o que me faz indagar acerca das motivações de se manter um blog e todo o trabalho que isso encerra. Ocorre que meus sonhos me são muito valiosos, pistas que sigo atrás dos sentidos de (meu) existir. Quando no antigo 2º Grau (hoje Ensino Médio) declinei de seguir a área de exatas, por razões de pouca afinidade, não podia imaginar que, passados cerca de 20 anos, sonharia estar fazendo uma prova de física, impossível de tão difícil, em que tiraria zero. Pois foi isso que se passou na última noite, na arena dos sonhos. Falando com a área de exatas, é claro que não se trata de nenhuma hesitação vocacional, mesmo porque é difícil acreditar em coisas como “vocação” e sua aura religiosa. Minha atual formação coloca-me na área de letras, em interface com as ditas ciências humanas, e não poderia querer melhor. Então, se num sonho em que comparecem pessoas conhecidas vejo-me de modo cruel tentando fazer uma prova de física para além de minha capacidade, num hermetismo a toda prova e sem qualquer motivação aparente para eu estar ali sentada fazendo aquela prova imensa e justamente de física (até porque muito tempo se passou), quando caio num pranto sem consolo e aparecem monitores tentando amenizar a situação, isso só pode ser uma tradução de demandas atuais. Eu reconheço a pessoa que está no papel de professor da disciplina, sei quem é, e as coisas dobram-se em nova densidade. Estar fazendo uma prova, ou exame, também traz inquietações novas, mesmo porque a nota zero é sinal de uma reprovação absoluta, o que leva para a intransigência. Há um compromisso envolvendo a pessoa que está no papel de professor do qual tento me esquivar (e chega a ser irônico pensar que hoje me tornei professora) seguindo uma outra pessoa também conhecida, e entendo o que está em jogo, o que seria esse ir atrás desta pessoa em particular, pois não se trata, em nenhum dos casos, das pessoas, mas do que elas representam. De repente tudo é mato, apenas mato. A prova de física e as pessoas que comparecem no sonho? Estou pedindo de mim mais do que o conjunto do meu ser pode dar. O mato é o oposto do papel branco em que consta a prova de física, é signo de minhas origens e da confusão que é viver. No papel branco podem ficar registradas as provas do que alguém pensou, sentiu, viveu ou sonhou, mas essa brancura e a organização (numa prova, por exemplo) é aquilo que decantou de tudo, do mato, das sombras, das dúvidas, das lágrimas, é só uma tentativa de registro. De mais a mais, escrever prova apenas a necessidade de escrever, uma autonomia que se conquista depois de ter atravessado tantas provas escolares e outras tão ou mais ferrenhas, que não terminam nunca.
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