Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 23 de janeiro de 2011

educar-me para a solidão

Fiz um post com esse título, pondo a palavra livros entre parênteses e a canção de Caetano Veloso a ilustrar o dito, apenas para não perdê-lo de vista. Trata-se de uma intuição que me veio numa conversa com uma amiga, em que passávamos em revista questões difíceis de adjetivar, envolvendo isso que se chama existência. Então me veio a intuição, já traduzida em palavras, a possibilidade de educar-me para a solidão, não exatamente no sentido que a palavra educação comporta, mas antes como a assunção de uma ética (e uma estética) que pressuponha uma atividade de distanciamento meditado. Educar-me para a solidão, sobretudo depurar-me do que é contingente demais, acessório. Pode ser só uma fase, pode ser uma escolha definitiva. 

2 comentários:

sonia disse...

Entendi o que quis dizer, mas nem pense em adiantar esse processo "intelectualmente". Vai chegar o momento de qualquer jeito e vc vai ter que lidar com isso. Existencialmente é melhor, sempre haverá tempo!(para mim, a partir dos 60, foi chegando de mansinho) e se você soubesse como estou metabolizando bem...talvez seja inevitável, a não ser que se prefira dar um tiro nos miolos. É um desafio que se insinua no dia-a-dia e traz como recompensa uma acuidade e um discernimento nunca acontecidos antes! É a famosa "Lei da Compensação". (Claro que tenho saudade dos meus 40 anos)mas como no fundo sou solitária desde que vim ao planeta, estou apenas aperfeiçoando a prática...rsrs
Bjs

Mariana disse...

Sônia, eu gostei muito disso que você escreveu, muito, pois percebo o quanto a palavra "solidão", mas que a própria solidão, assusta. E conseguir ficar consigo mesmo é tão bom.

O que você coloca como "acuidade e um discernimento nunca acontecidos antes" é uma conquista, certamente, e é certo também que não virá intelectualmente: virá por força mesmo de estar atento às coisas, ao mundo, às pessoas.

Há um trecho muito curioso de Raízes do Brasil em que Sérgio Buarque fala disso, ao teorizar sobre o homem cordial: é um tipo que não suporta estar apenas consigo mesmo, precisando sempre da companhia de outrem.

Sérgio Buarque se apóia num trecho de Nietzsche: "O vosso mau amor por vós próprios converte a vossa solidão num cativeiro." E afirma: "No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência." (Raízes do Brasil, 26.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.147.)

Quando fiz 20 anos mudou minha percepção da vida, quando fiz 30 mudou a própria vida, quando fiz 40 senti alguma coisa diferente, nova, se insinuando. E todos nós nascemos sozinhos e vamos morrer sós.

Nesse sentido, assistir "Asas do desejo", do Wim Wnders, foi fundamental. Quantas solidões e histórias, plasmadas por um lirismo e uma poesia impossíveis. Como não pensar em Rilke?

Outro beijo.