Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

petralhas

Em minha natural boa vontade para com o próximo, e dada minha reclusão recente em virtude do excesso de trabalho, estava um pouco afastada das discussões políticas. Eis que, ao retornar ao mundo, sou surpreendida por um neologismo: petralhas, cuja etimologia não é difícil de rastrear: os famosos irmãos metralhas dos quadrinhos + a sigla do PT. Logicamente, meus interlocutores, leitores assíduos da Veja e que consideram o Reinaldo Azevedo o homem mais inteligente deste país, não deram espaço à contra-argumentação, e é mesmo complicado varar discursos que se erigem como muralhas, numa estranha semelhança fônica com o termo difundido pelos anti-comunistas, anti-terroristas, anti-populistas à espreita de qualquer ameaça de transformação social. Segue aqui a resenha da obra do gênio, aliás assinada por outro suposto gênio e divulgada pelo próprio semanário mais reacionário deste país, em que o gênio pontifica, num páreo duro com o William Bonner e o Jornal Nacional. A edição é da Record, e por aí fica-se sabendo mais um pouco acerca do barulho que houve em torno do prêmio Jabuti de 2010. Tentar ler a Veja é o mesmo que tentar ler Paulo Coelho: insuportável. No entanto, seus colunistas e leitores se supõem as pessoas mais bem informadas deste país, e olham, quando o fazem sem arrogância, os discursos que deles tentam divergir com uma estranha indulgência ou complacência, como a dizer: um dia você ainda vai acordar e se deixar tocar/iluminar pela verdade, por enquanto você está na escuridão, não consegue ver. Não estranha que tal postura lembre os discursos religiosos: estamos no terreno do dogma, não do diálogo. Assim, vele a pena conferir duas posições divergentes, entre tantas: A peculiar democracia paulista e Petralhas são inimigos do sucesso pessoal. Neste último site encontrei uma curiosa enquete, Quem é o maior pensador intelectual da atualidade? Quase deu Reinado Azevedo, e os comentários falam por si.  

Permeiam esses debates e questões disputas seculares, e em surdina, pelo poder no país, não tanto pelos espaços que legitimam os discursos, que estes há aos montes, mas pela própria legitimidade dos discursos. Então, diante do quadro geral e progressivo de rebaixamento da qualidade da educação oferecida no país, torna-se mais fácil a construção de saberes que com ares de verdade, e mesmo aqueles que pretendem desmistificá-los, ou estar acessando a verdade, não se desconfiam como agentes/pacientes de um processo que lhes ultrapassa. O maior problema, ainda, é não desconfiar, é olhar ao redor de si e supor-se seguro acerca do saber que (supostamente) se possui, daquilo que é dado a cada um conhecer. Os que se alinham às forças conservadoras não desconfiam, e seria ingênuo supor que o simples debate vai mudar alguma coisa. Daí eu normalmente me calar e deixar-me passar por tola ou enganada: de uma forma ou de outra, todos estão enganados, não há possibilidade de um olhar objetivo, de fora e isento de tudo, exceto para uma entidade como Deus, mas isso já é outra conversa. Tudo o mais é factível e passível de engano e confusão. Por isso a temeridade daquela sentença: Se Deus não existe, então tudo é permitido, afirmação que, longe de ser religiosa, encerra os próprios dilemas da modernidade, cujo principal movimento foi por tudo em questão, inclusive Deus. Tudo está em questão, e as mudanças de perspectiva não vêm pela boa vontade dos discursos, embora estes possam ajudar aqui e ali: costumam vir por abalos sísmicos que atravessam de fora a fora quem os experencia. Talvez seja esta a diferença posta entre arte e cultura por Godard naquele curta. Um livro de Dostoiévski tem muito maior poder de abalo e transformação que cem livros de sociologia, e por isso as discussões em torno das relações entre arte e política às vezes se tornam tão inócuas. 

No entanto, a disputa por espaços e pela legitimidade dos discursos prossegue, e basta um olhar ligeiro para o cenário atual da crítica literária brasileira para perceber o quanto as disputas em torno dos prêmios literários (se o livro de Chico Buarque mereceu ou não o prêmio Jabuti e tal) envolve disputas de maior envergadura, e essa é uma politização da arte bastante nociva, pois que se sai da esfera do juízo de valor, que nunca é isento, para uma assunção de imparcialidade. Não sei se a emenda melhorou o soneto, mas o fato é que esse espaço não vai mais se furtar à discussão de questões de crítica, falando num sentido abrangente, pelo próprios antecedentes da signatária dos posts. Se alguém se sente autorizado a desqualificar um escritor tendo como horizonte apenas a ideologia dos discursos de que se alimenta, então necessariamente é preciso que se diga que está em jogo um perigoso mecanismo de uso político da arte. 

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