Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rubem Braga: ODABEB


Contam de Murilo Mendes que um dia ele ia passando com um amigo por uma rua de Botafogo quando viu uma mulher na janela de um sobrado. Deu uma coisa no poeta, ele se deteve na calçada fronteira, ergueu o braço e gritou:
― Meus parabéns, minha senhora. Está uma coisa belíssima! Mulher na janela! Há muito tempo não se via! Está belíssimo!
A senhora, assustada, fechou a janela bruscamente, achando que estava diante de um louco. Mas o poeta prosseguiu seu caminho com o sentimento do dever cumprido.
Também contam que um bêbado ia pela rua e um enorme jacaré ia atrás dele. Cada vez que o homem entrava em um bar o jacaré gritava: bêbado! Quando o homem saía de um bar para entrar em outro, o jacaré gritava outra vez: bêbado! Até que uma hora o homem perdeu a paciência, agarrou o jacaré pelos queixos e o virou pelo avesso, jogando-o a um canto da calçada. Quando saiu do bar o jacaré lhe disse ― odabeb! ― que é bêbado de trás para diante.
Há outras histórias, mas penso nessa. Não matamos o nosso jacaré, nem nenhum outro bicho; apenas o que fazemos é virá-lo pelo avesso, o que é lamentável, mas ineficiente. E a última mulher na janela foi lá dentro atender ao telefone. Os prédios são altos e se espreitam traiçoeiramente com binóculos na sombra. E como todo mundo tem mais o que fazer, os poetas se tornam incômodos. Virá-los pelo avesso não é solução. Eles não silenciam ― e você, que não entende os versos, pensa que ele não está querendo dizer nada. Mas "se meu verso não deu certo foi teu ouvido que entortou", disse um mestre. Os pintores também foram virados pelo avesso, mas continuam a pintar tudo tão insistentemente que, vendo suas telas, uma pessoa mal informada pode pensar que o mundo é que foi virado pelo avesso.
A classe burguesa levou mais de um século para se abster, e não completamente, de ensinar moral aos seus artistas. A classe proletária começa agora a impor sua moral, em outra fútil e dolorosa campanha.
Dêem-lhe tempo: ao fim de algumas gerações ela obterá centenas de pintores condecorados e acatados, músicos e poetas importantíssimos em suas academias ― mas nenhum artista. O artista, virado pelo avesso, dirá apenas: odabeb. E muitos dos homens felizes consigo mesmos e com sua vida ficarão desconfiados; e alguns ficarão pálidos.

Rio, abril de 1951.

BRAGA, Rubem. Para gostar de ler. Vol. 4. São Paulo: Ática, 1994, p.72-73.

Uma contextualização: esta crônica vem me acompanhando vida afora, conforme o método infalível da leitura assistemática. Devo ter lido pela primeira vez na adolescência, e ela se fixou em minha memória pelo gesto tresloucado do poeta diante da imagem de uma mulher na janela, já então rara. Depois voltei a ela numa turma de ensino médio, mas pouco alcancei. Hoje, num relance, ela me veio à mente, procurei entre os papeis dispersos pela casa e não foi difícil localizar. Reli, e não só percebi o que se adensa ao final como me dei conta do porquê da dificuldade dos alunos. De fato, Rubem Braga apresenta questões sofisticadas numa linguagem própria ao veículo a que a crônica sempre se destinou, o jornal, matizando-se apenas o fato de que outro era o tempo.

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