Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

defesa

Da minha defesa quero guardar essa imagem, dos antecedentes (ou bastidores). Me distraía do que estava por vir testando, com a ajuda de uma amiga, qual a melhor configuração da máquina fotográfica para o ambiente. Trata-se, no caso, da cantina da faculdade de letras da ufmg, lugar de encontro com os amigos, de certa descontração, de um falar menos amarrado aos ditames acadêmicos (falo por mim, evidentemente). Da ufmg sentirei falta principalmente deste lugar, pois conversas importantes se deram aí, trocas muito ricas, a partir das quais decisões foram tomadas. A imagem, no entanto, trai a tensão do que se aproxima, meu modo entre o sério e o disciplinado de me colocar nesse lugar de enunciação, que é a universidade. É uma declaração de amor ao que escolhi estudar.


P.S. Assim como a máquina fotográfica, também eu estava me ensaiando para o ritual, o que justifica certa falta de nitidez da imagem.

17 comentários:

Luiz disse...

Nossa queria ter estado nessa cantina no mesmo dia que você para te dar um abraço. Foi nela que num papo bem descontraído você me deu todas as respostas que precisava para fazer uma boa prova sobre o Benjamin e passar na seleção do mestrado. Agora estou na metade do doutorado, tive que esquecer o Benjamin e vamos ver o que acontece.

Mariana disse...

Obrigada :)

Esses papos são bem bons, costumam frutificar.

Também me empenhei em "esquecer Benjamin", mas ele apareceu como um fantasminha na arguição. Impagáveis certos detalhes, antes, durante e depois. Rolou inclusive um pique de luz.

Renata disse...

E pensar que o pico de luz foi apenas um dos momentos inusitados, hahaha! =)

Mariana disse...

... entre outros mais, que dão a crônica dos bastidores, a escolher:

a) a interrupção pela funcionária, perguntando se alguém ali tinha deixado um celular no banheiro...

b) eu aliviando a pressão da defesa através dos pés, descalçando as sapatilhas enquanto era arguida...

c) o episódio surreal do celular (que parecia um gato ronronando perto de mim)...

d) outros detalhes que me escapam no momento....

Mariana disse...

P.S:

Tem toda razão, ma chérie, o negócio é soltar uma boa gargalhada disso tudo, "desentalar" da garganta, aproveitar a onda do neologismo (nithienga) e tentar ver as coisas como quem viu da plateia (um certo distanciamento), mais saborosas, sem dúvida.

Obrigada por ter participado (no sentido forte do verbo) deste momento tão importante para mim.

Beijo.

josépacheco disse...

Muitos parabéns, Mariana, pela superação do ansiado momento. vejo-a, na foto, alegre mas, ao mesmo tempo, de facto, ligeiramente tensa - e com um vestido vermelho ao qual pede confiança e garra. Tem de ter sido brilhante. Que pena não ter podido assistir ao modo como o nervosismo dos primeiros minutos foi cedendo lugar ao seu entusiasmo, à sua inteligência e preparação. E o orientador, ali à frente, encantado, não? Não vi nada, adivinho tudo. Errei alguma coisa? Parabéns.

Mariana disse...

Prezado José Pacheco, muito obrigada pelas palavras elogiosas.

De fato fiquei bem tensa, havia quatro arguidores, a defesa durou quase seis horas, de forma que ainda não assimilei bem o que se passou. Preciso me distanciar um pouco. O vestido vermelho (ou coral, como disseram as amigas), foi estratégico, embora não tenha sido premeditado.

Recebi muitos elogios, em especial à escrita e à pesquisa em si, mas problemas foram apontados, em especial de incompletude da pesquisa, conforme eu já esperava.

Meu orientador é um caso à parte, nunca terei agradecido o suficiente tudo o que ele fez por mim. Ele e às amigas que estavam na plateia. Creio que é deles a melhor visão de tudo, pois a gente, diante da banca, se sente meio acuado, como um gato, na defensiva. Daí o nome do evento: defesa. Parafraseando meu próprio trabalho, a visão que tive de tudo é um pouco expressionista.

Zé alberto disse...

Olá,
Contente por si, Mariana, pela sensação de desafio superado, pela libertação que isso lhe suscita...contente por si.

um abraço!

Mariana disse...

Zé Alberto, entre outras coisas, agora tenho um título, algo que conta muito no Brasil. E tocar a vida, continuando a estudar o que gosto e quero.

Obrigada!

Luiz disse...

Não consigo responder seu último e-mail, ele diz muita coisa bacana para mim...Passei por aqui para arejar um pouco e ler você. Boa noite e obrigado pela melodia de suas palavras, que são ásperas quando precisam ser e essencialmente delicadas.

P.s. A literatura é sempre um bom caminho para se salvar...

Boa noite!

Mariana disse...

:)

Boa noite, durma bem, tenha bons sonhos!

Jamil S.P. disse...

Parabéns, Doutora! :o)

Mariana disse...

Obrigada!

Ainda não me acostumei com o termo :)

TEREZA QOSQO disse...

Parabéns, Mariana!

Sinto por ter perdido a primeira oportunidade de conhecê-la pessoalmente...
Espero que a próxima não tarde em chegar!
Grande abraço!
:)

P.s:
Estou aqui pensando com meus botões sobre as estórias das "Marianas"... Você está finalizando o percurso que eu acabei de começar. Hoje saiu o resultado do exame de proficiência para ingresso no mestrado. Está dado o primeiro passo: fui aprovada!

Mariana disse...

Chegará: Minas e Rio entretêm ótimas relações.

Parabéns pela aprovação. Mariana e Tereza são nomes fortes.

Abraço.

...indiscerní... disse...

Depois de passar pelo exercício de fascismo dos dotô (pq tremer diante desses bostas entitulados e autorizados a falar bobagens sem fim?),é hora de começar a desenvolver aquilo que interessa no seu trabalho (o que seria? É algo que vc só vai saber a partir de agora).
Parabéns por ter sobrevivido a este povo que odeia o pensamento e não ter perdido a ternura.

Mariana disse...

Obrigada!

Ainda não sei que rumos vou dar a meu trabalho, mas é certo que a questão se impõe. Estou confusa, preciso rever coisas, muitas, em especial quando se coloca o fator "publicar".

Você lembrou uma coisa fundamental, não perder a ternura. Ela estava até no detalhe do vestido. É preciso não perder a ternura. Vou anotar no meu caderninho.

Mário Faustino e seu célebre verso: "Tanta violência, mas tanta ternura!". Prefiro-o ao dito clássico do Che.

E é certo que me defendi como pude, mais firmemente quando intui, feito criança, que estava apanhando.