Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

[Canto III, Poemas Relativos, II]

Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?

Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.

Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.

E nem as tocaste:
folha e flor. Tu ― haste,
elas reais, mas réstias.

LIMA, Jorge. Invenção de Orfeu. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 72.

2 comentários:

anielle disse...

Dá pra explicar por favor o que significa,não entendi nada!!!

Mariana disse...

Olá, Aniele. Pelo que entendi, o poema é metalinguistico, tendo a própria operação da leitura poética como motivo, tema:

Queres ler o que / tão só se entrelê / e o resto em ti está?

Isso é projetado na metáfora da flor: uma flor (o poema) que pode existir sem a umbela, sem o leitor. Nós é que buscamos o poema, a flor.

Então olhamos/lemos, e o jogo entre a folha (papel) e a flor (metáfora do poema) sugere que a leitura de um poema não é exterioridade (desfolhar, decodificar), mas tomar posse da flor, dos sentidos, tornando-se a haste que faltava.

O poema tematiza então as complexas e delicadas relações da leitura poética: a leitura é uma posse de algo que antes era visto como autônomo, e nos tornamos parte então do poema, e ele de nós.

A folha (papel e parte integrante da metáfora) e flor como réstias tem um duplo sentido: o trançado de palavras com que um poema se faz, e também este, mais bonito: "feixe de luz que passa através de orifício ou abertura estreita", que pode ser entendido como a própria iluminação da descoberta dos sentidos possíveis.