Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

brisa

Enquanto arrumo as coisas para a mudança, abri a porta da casa onde moro pela última noite para verificar a caixa do correio. E uma brisa muito agradável arejava a área externa. Resolvi deixar a porta aberta, para a brisa entrar. Nunca, antes, eu havia notado essa brisa, ou se notei não lhe dei importância, talvez pelo horário, quase meia noite, talvez pelo hábito de chegar, entrar rápido e fechar a porta. Então sei que não abri a porta para verificar o correio: abri-a para receber a brisa agradável, deixar o frescor adentrar a casa. Porque amanhã não estarei mais aqui, e é preciso que as coisas saiam um pouco de seus eixos para que esses momentos de intensa liberdade possam ter ensejo: a porta aberta da casa à noite, sem qualquer perigo. Estou deixando isso, pelo conforto de um apartamento, cuja porta ficará permanentemente fechada. Mas não se trata de uma negociata, em que perdas e ganhos são computados. Porque sei que levarei esta porta aberta comigo, minha liberdade.

5 comentários:

antónio cabrita disse...

mariana
não vejo nenhum motivo para ser tão reservada a aceitar o aplauso, se até as pequenas brisas a fecundam desta maneira, límpida e detalhada
foi uma delícia visitá-la in su sitio
e sabe, de facto, pensar bem e bem escrever nem sempre são sinónimos,
basta não recear um pouco de ventania voltarei bjo de maputo antonio cabrita

Mariana disse...

antónio, que lindas palavras as suas, adorei! Concordo nisso: escrever bem não é sinônimo de pensar bem, é outra coisa. Às vezes calmaria, às vezes ventania, outras brisa.

Obrigada pela visita. Outro beijo.

sonia disse...

Meu pai tinha o costume de abrir portas e janelas de casa, por ocasião do Ano Novo. Dizia que era para limpar a casa do ano velho e deixar entrar o novo ano. Coincidência ou não, você fez isso talvez para o mesmo fim, no caso, começar uma nova vida. Interessante!!!

Mariana disse...

Sônia, não tive esse privilégio, um pai de gestos tão generosos. Mas quanto à equivalência dos gestos, eu não tenho dúvida. Uma lufada de ar entrou porta adentro aquele dia, para ficar. Beijo.

sonia disse...

Não pense que isso era parte de muitos gestos generosos. Ele era osso difícil de roer. Sofremos muito lá em casa por causa do gênio violento. Marcou a ferro e fogo, pode crer!