Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Memórias do cárcere - III

Passados o esgotamento com a escrita da tese e a ressaca da defesa, estou podendo, quando as obrigações do trabalho e outras que, de um modo ou de outro, são aborrecidas, permitem, ler por prazer, ler sem outro compromisso que não seja a satisfação que a literatura traz. Às voltas com Memórias do cárcere, constato que de fato é um livro imperdível. Um verdadeiro manual de sobrevivência, além de tudo. Não é Paulo Honório, não é o narrador impessoal de Vidas Secas: é o homem forjado em Infância, que encontrou na serenidade o antídoto para enfrentar as adversidades: 

“Apesar da confusão, devia aparentar calma, pois o carcereiro me indicou, largou uma frase que me feriu como uma chicotada:
― Este parece um cadeeiro velho.
Estremeci:
― Hem?
― Entra como se estivesse em sua casa.
Cheio de vergonha, nada respondi, pois me faltavam elementos para refutar a opinião do homem. Se ele, observador profissional, me via assim, teria lá suas razões. Ponderei, extingui melindres. Tinha motivo para escandalizar-me? Não. Em duros casos, a observação podia ser considerada elogiosa. Consigo realmente ambientar-me depressa, acomodar-me às circunstâncias. Percorrendo o sertão, muitas vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma árvore, envolvi-me na capa, estirei-me na terra e dormi, tranquilo e só. Não seriam piores que cobras e outros bichos do mato os habitantes da prisão. Mas que teria eu feito para o indivíduo confundir-me com eles? Muitos ali aparentavam serenidade, riam, falavam naturalmente, e a preferência me tocara. Esquisito.”

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.179-180. 

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