Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

hoje o mundo se tornou um pouco mais ridículo (e mais perigoso)

Teste de DNA? Corpo jogado ao mar? Aqui um depoimento lúcido: 
Menos ainda para desritualizar a tal ponto a morte. 

5 comentários:

Teophanio Lambroso disse...

E bota rídículo nisso, Mariana.

O que me assusta, muito, não é o perigo que vem, mas o que persiste, nas milhões de cabeças que nem desconfiam que estão a premio.

Abraço

Wilden Barreiro disse...

ontem eu pretendia postar um texto sobre a gentileza, a gentileza de fato, a que prescinde da moral religiosa e de qualquer tipo de retribuição.
aí veio a bomba, a obamobomba. fiquei tão abestalhado, tão árido por dentro, que tudo me pareceu sem sentido, inclusive e principalmente a exaltação de qualquer valor humano.
sou carne, carne da mesma carne agora fria de Ozama, carne da mesma carne congelada de Obama.
e, por ora, carne de segunda... ou de quinta, se houver.

parabéns pela postagem oportuníssima, exata na manifestação de perplexidade.

um abraço

Mariana disse...

Wilden: o curioso é que hoje, antes de sair para trabalhar, dei uma passada geral nos blogs e vi no desinformação seletiva a postagem Licença para Matar, e não entendi nada. Aí, quando cheguei no trabalho, me falaram da morte, aí caiu a ficha, fui para a internet, e fui ficando a par dos muitos absurdos.

Não há de fato valor humano a exaltar, nada, quanto menos acreditarmos nisso, na humanidade, mais estaremos a salvo dela. Só acredito no micro, no que se pode fazer em pequena escala.

O que aconteceu é muito grave: matar sem julgamento e sumir com o corpo é atestado de regimes de exceção, não de um país que se autoproclama "a" democracia. Tudo isso é balela.

Teophanio, o que nos salva desse ridículo todo é ainda ter o direito de falar um bom palavrão: tanatocracia, por exemplo.

Quanto ao perigo, tenho uma vaga noção do que você diz. Vejo uma cadeia de ações-reações que parece interminável. Não acredito na morte como solução de qualquer problema. Mas há porões escuros, há reuniões secretas, há seres que estão simplesmente condenados. Há um estranhamento muito grande em tudo o que aconteceu, como se algum pacto tivesse sido violado: o pacto que ainda fazia acreditar nas ditas "democracias ocidentais".


Abraço a ambos.

Lu disse...

Quando eu digo que o humano me assusta, acham que eu estou exagerando. Acho que a morte é uma arte que deve ser respeitada tanto quanto a vida. Só posso lamentar esses rituais que mostram que Bin Laden deixou herdeiros de seus atos. A balança pendeu para o mesmo lado.
bacio

Mariana disse...

Não está exagerando não. Há muitas ficções em torno do humano, e no entanto ele não se cansa de se mostrar bizarro (uma leitura libertadora: "O banqueiro anarquista").

Entre nascer e morrer, quantas ficções, que parecem determinar o modo com que cada um vai morrer. A total falta de respeito com a morte (seu ritual) mostra o quanto a vida vale para o capitalismo: nada. Difícil fazer essa balança pender para a vida.

Abraço.