Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

delicadeza

Nada, nem a coisa mais sublime que fizermos, o gesto mais desprendido e belo, vai revelar a nossa delicadeza ante o mundo se o mundo não a quiser. Ao contrário, mesmo as palavras e seu empenho acabam revelando a insuficiência. Por isso a poesia é tão importante, não para conter a aspereza alheia, mas para resistir-lhe, pois ela fatalmente virá, não importa quão delicados sejamos, queiramos ou tentemos ser. Há algo de inóspito nas relações, revelando cactos que se querem flores. Então, no meio da tarde, ouve-se um beijo estalar, e o mundo parece provisoriamente redimido. Porque entre o cacto e a flor há toda uma gradação de sentidos, como um holograma que ora revela um, ora outro. 

6 comentários:

Jamil P. disse...

http://www.richardadam.pwp.blueyonder.co.uk/orange%20cactus%20flower.JPG

Luiz disse...

...muito bonito...

Doncovimeproncovô disse...

Obrigado, querida, por tanta delicadeza. Parafraseando Nélia Piñon, você pertence a uma estirpe rara: que se empenha em embelezar o cotidiano. Ê... trem difícil hoje em dia!
Beijos imensos,
Fábio

sonia disse...

Já desisti de tentar explicar a mim mesma se sou mais chegada à filantropia ou à misantropia. Pra ser sincera, gosto de certas pessoas mas tenho verdadeira aversão por certos tipos. E fujo de ajuntamentos. Mais de 3 pra mim já é turma, estou fora!
Quando eu tinha lá pelos 12 anos meu avô me chamava de "anacoreta". Precisei ir ao dicionário para saber o que era.
Mariana, seja gentil com você, isso respinga nos outros, e é suficiente!
Beijo.

Mariana disse...

Jamil, Luiz, Fábio, Sônia: li uma passagem do Graciliano assim: "áspera delicadeza", e lembrei do post, dos comentários, de muita coisa. No livro, não era um paradoxo, o que explica muita coisa. Estou afastada do blog, porque sem internet em casa (a mudança...), e sinto falta.

Jamil, ainda não consegui acessar a página (escrevo no trabalho). Fábio e Luiz, estou tentando ver beleza mesmo no que me desconcerta. Sônia, estou um pouco assim como você, e não economizando em gentilezas comigo mesma.

Grata pelos comentários :)

Esquife de Memórias disse...

Passei por aqui:)