Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

a matéria-prima de um verso

Tem se repetido: não consigo dormir sem escrever, sem passar por aqui e deixar algo da minha caligrafia. Recebi hoje a poesia completa de Álvaro de Campos, meu preferido na confusão (ou concerto) de vozes pessoana, à parte O banqueiro anarquista. Então, ocupando toda uma página, um único verso, sem título ou qualquer outra indicação, exceto o número que dá sequência aos poemas (42):

Vou atirar uma bomba ao destino.

O poeta não diz que quer atirar: diz que vai. E se o gesto de atirar a bomba estiver inscrito no destino? Não há, tal como se concebe tradicionalmente o destino, como não estar, de forma que Álvaro de Campos voou longe aqui, pilhando séculos de construção metafísica em torno da noção de destino, que é o que ele efetivamente tem sob mira. Ou seja, ele não está falando apenas de seu destino, está falando do destino, da construção que mistura superstição e intelecção para erigir uma das noções mais tirânicas de que se tem notícia, o grande procurador dos negócios humanos, no dizer de Machado de Assis. Atirar uma bomba ao destino: eu queria ter fôlego para alcançar a revolução proposta neste verso. 

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