Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mário Faustino: verbo em êxtase

Três artesãs me olharam
Dizendo-me seus olhos
Do fim que paira mais que nunca próximo
E mudas descobrindo
Apenas com seus olhos
A boca deste túnel onde vou
Tateando a frieza
Das fragas e das sombras de que é feito.
Mostraram-me seus olhos
A única saída
A construção de um deus
Menos cruel, mais claro
Feito só de matéria cognoscível
Com algo de animal
No corpo feito de êxtase
E lavores humanos
E humanas liberdades
Na cabeça de graça e força feita.
Mandaram-me seus olhos
Reconstruísse o homem
Dos restos em que o homem se dispôs
A si mesmo destruindo
Em louvor de seus deuses mais obscuros.
Tomasse eu, por exemplo,
Contemplações eternas
E eternas rebeldias
E um passo iconoclasta
E um gesto suicida
E o fogo do que cria
E o pranto do que não.
E tudo recompondo à chama desse
Então deus já criado
Saudasse o novo súdito
Com verbos sem sentido.
E deram-me seus olhos
As puras diretrizes
Do mundo que mister será criar
Como trono do deus,
Como carga do homem.
Um mundo onde o mover-se
Seja um ato gratuito
Um mundo onde a palavra
Seja ornamento inútil mas sem preço
E exato, inofensivo.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.168-169.

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