Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 31 de maio de 2011

Alexei Bueno

TRANSCENDÊNCIA

Os pássaros que morrem,
As flores que fenecem,
Os córregos que correm
Ao mar onde adormecem,

Que calma de crepúsculo
À quieta noite os leva,
Sem que um soluço, um músculo
Se exalte contra a treva!...

Como as folhas que aragem,
Como um trapo, retira
De ombros onde a folhagem
Nascente já se estira,

Tudo se vai ritmado
Num mesmo canto antigo,
Enquanto em nós, torvado
De um íntimo perigo,

O olhar se atira além,
Sem tal terrena calma
Que o corpo nos contém
Mas nunca a nossa alma.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.281.

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